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Apesar da pequena extensão territorial, a Holanda está se tornando uma gigante da agricultura e mostrando ao mundo o que pode ser uma nova tendência. Há quase duas décadas, o país assumiu um compromisso nacional para a agricultura sustentável, com o objetivo de “produzir o dobro da comida usando metade dos recursos”. Desde então, os agricultores holandeses conseguiram reduzir a dependência de água em até 90%. Também conseguiram eliminar praticamente o uso de pesticidas químicos nas plantas cultivadas em estufas. Desde 2009, os produtores de aves e fazendeiros de gado reduziram em 60% o uso de antibióticos nos animais.

Há uma razão clara para isso. A Holanda é um país pequeno e populoso. Além disso, não conta com os recursos naturais necessários para a agricultura em larga escala. Ainda assim, conseguiu se tornar o segundo maior exportador, em valor, de alimentos – atrás apenas dos Estados Unidos, que tem 270 vezes o tamanho do território da Holanda.

Vista do ar, a Holanda não se assemelha a nenhum outro grande produtor de alimentos. Um mosaico fragmentado de campos cultivados, sendo que a maioria é de pequenos produtores, permeia as cidades. Na principal região produtora do país, não há um campo de batatas, estufa ou criação de porcos de onde não se veja um arranha-céu, fábrica ou subúrbio. Mais da metade da área do país é usada para agricultura. O complexo de estufas cobre uma área de 70 hectares. Essas “fazendas climatizadas” permitem que o país produza um fruto cultivado em regiões com clima muito diferente: o tomate. A Holanda também é o maior exportador de batatas e cebolas, e o segundo maior exportador de vegetais, em valor. Mais de um terço do comércio global de sementes tem origem em terras holandesas.

O cérebro por trás desses números, como contou a National Geographic, é a Wageningen University & Research (WUR). Conhecida como uma das melhores instituições de pesquisa em agricultura, a WUR é o ponto mais importante do Vale dos Alimentos, um amplo conjunto de startups de tecnologia agrícola e fazendas de testes. O nome é uma alusão ao Vale do Silício, na Califórnia, sendo que a Wageningen tem o mesmo papel da Universidade de Stanford em unir a academia ao empreendedorismo.

Plantão de tomates em estufas na Holanda: país está na ponta da corrida tecnológica na produção de alimentos (Foto: Reprodução/YouTube)

Ernst van den Ende, diretor do Grupo de Ciências das Plantas da WUR, abraça essa abordagem do Vale dos Alimentos. Autoridade mundial em patologia das plantas, ele diz não ser “somente um reitor”. “Metade do tempo eu gerencio a escola, mas na outra metade olho para nove unidades de negócios separadas envolvidas em contratos comerciais de pesquisa”, afirma o pesquisador. Somente com essa mistura entre ciência ce negócios, diz ele, o país “consegue enfrentar os desafios que tem a seguir”.

E quais são esses desafios? Em uma imagem quase apocalíptica, Ernst van den Ende diz que o planeta precisará produzir “mais comida nas próximas quatro décadas do que todos os agricultores colheram nos últimos 8 mil anos”. A razão é que em 2050, a Terra terá 10 bilhões de habitantes, muito mais do que os 7,5 bilhões que vivem hoje no planeta. “Se não conseguirmos um aumento significativo na produtividade das lavouras, com a redução massiva do uso de água e combustíveis fósseis, um bilhão de pessoas podem passar fome”, avisa o especialista.

A fome, inclusive, pode ser o problema mais urgente do século 21, e os visionários que trabalham no Vale dos Alimentos acreditam que encontraram uma solução inovadora para essa questão. O otimismo vem do resultado de centenas de projetos da WUR em mais de 140 países, e de pactos formais com governos e universidades nos seis continentes para implementar os avanços.

Van den Ende tem muitas ideias sobre a produção de alimentos. Seca na África? “O problema fundamental não é a água, é a má qualidade do solo”, afirma. “A ausência de nutrientes pode ser compensada cultivando plantas que agem em simbiose com certas bactérias para produzir o fertilizante”. E o que fazer com os elevados custos de grãos para alimentar o gado? “Alimente os animais com gafanhotos”, sugere o holandês. Um hectare de terra produz uma tonelada de proteína de soja por ano. A mesma quantidade de terra pode produzir 150 toneladas de proteína de insetos.

Na Holanda, o futuro da agricultura sustentável está sendo moldado não nas grandes corporações, mas em milhares de famílias modestas de fazendeiros. Um exemplo é o da fazenda dos irmãos Ted, Peter, Ronald e Remco Duijvestijn. Em um complexo de estufas de 15 hectares, há pés de tomate com seis metros de altura – plantados não na terra, mas em fibras de basalto e giz. Em 2015, eles foram escolhidos por um júri internacional como os produtores de tomate mais inovadores do mundo.

Desde que reestruturaram a fazenda da família, de 70 anos, em 2004, os irmãos Duijvestijns buscam a independência de recursos. A fazenda produz quase toda a energia que consome, os fertilizantes e até mesmo alguns dos materiais usados na embalagem dos produtos. O ambiente em que as plantas são cultivadas é mantido a uma temperatura ideal para seu crescimento, com o calor gerado a partir de aquíferos geotérmicos.

A irrigação é feita com água coletada da chuva. Cada quilo de tomate precisa de 15 litros de água, comparado a 60 litros necessários para cultivar a mesma quantidade de tomate em campos abertos. As poucas pragas que conseguem se instalar nas estufas são tratadas com Phytoseiulus persimilis, um ácaro que não ataca os tomates, mas acaba com os insetos.

A ponta da frente de inovação na Holanda, porém, está nas sementes. É nesse quesito também que está a maior parte das polêmicas sobre o futuro da agricultura. O mais controverso é o desenvolvimento de organismos geneticamente modificados (OGMs) para aumentar a produção e criar lavouras resistentes a pragas. Os críticos dão uma pecha de Frankenstein aos OGMs, rodeados de incertezas sobre as consequências dos experimentos em organismos vivos.

As empresas holandesas estão entre as líderes no segmento de sementes, com exportações perto de US$ 1,7 bilhão em 2016. Mas elas não vendem sementes OGM. Para lançar uma nova variedade de semente no ambiente altamente regulado para os transgênicos como a Europa pode custar milhões de dólares e 12 a 14 anos de pesquisa, de acordo com Arjen van Tunen, da empresa KeyGene. Entretanto, as mais recentes descobertas na ciência do melhoramento molecular – que não introduz genes de outras empresas – podem entregar ganhos expressivos em cinco a dez anos, com custo de desenvolvimento de US$ 100 mil e receita de mais de um US$ 1 milhão. A técnica é descendente direta de métodos empregados há 10 mil anos pelos agricultores da Mesopotâmia.

O catálogo de produtos da Rijk Zwaan, outra empresa holandesa do setor, oferece sementes de alta produtividade de mais de 25 tipos de vegetais, muitos deles com proteção natural contra as principais pragas. Heleen Bos, responsável pelos orgânicos e projetos internacionais da empresa, já trabalhou no campo em algumas das nações mais pobres do mundo nos últimos 30 anos – incluindo longas passagens por Moçambique, Nicarágua e Bangladesh. “Claro que não podemos implementar imediatamente a agricultura ultra-high-tech que temos na Holanda, mas podemos introduzir soluções que podem fazer uma grande diferença”. Heleen cita as estufas de plástico, que chegam a triplicar o rendimento das lavouras.

 

 

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Sustentabilidade e preservação ambiental são temas cada vez mais discutidos no dia a dia. Mais e mais pessoas estão percebendo que, ainda que individualmente, mudar hábitos e ações com o intuito de reduzir o impacto ambiental e preservar recursos naturais é uma reação necessária. Mas quando a pauta sustentável chega à mesa de líderes de empresas e indústrias, os impactos podem tomar proporções ainda maiores e fazer a diferença tanto local quanto globalmente.

Para garantir que tenhamos acesso a todos os tipos de bens de consumo, as indústrias e empresas precisam usar recursos que são potencialmente poluentes. A instalação de uma fábrica em um espaço que antes era apenas campo, por exemplo, traz resultados contrastantes: ao mesmo tempo em que causa impactos ambientais, também gera empregos e contribui para o desenvolvimento econômico. Esse efeito é necessário para que possamos continuar usufruindo de todos os produtos que fazem parte do nosso dia a dia: dos alimentos, à água até eletrônicos e roupas, praticamente tudo passa por um processo de industrialização.

Mas se por um lado as grandes empresas utilizam recursos naturais em grande escala para garantir o funcionamento de cada etapa da produção, por outro, quando elas decidem ajustar seus processos industriais visando à sustentabilidade o resultado também é em proporções maiores. Medidas tomadas no dia a dia da indústria a tornam mais sustentável. E cada vez mais empresas estão percebendo isso e implementando ações que diminuem seu impacto ambiental.

Consciência ambiental na indústria é possível

Empresas ambientalmente conscientes são as que se preocupam com o efeito que causam no meio em que estão instaladas e que tentam reverter alguns cenários por meio de melhoria de processos industriais. E a sustentabilidade pode, sim, ser empregada em diversos pontos da rotina de qualquer indústria – desde que haja interesse em fazer o bem e devolver à natureza o que se tira dela.

Um exemplo de que esse comportamento é possível está na Döhler, empresa têxtil catarinense instalada em Joinville que encontrou formas de se tornar mais sustentável e diminuir sua pegada ambiental. As medidas, além de compensarem o potencial poluidor da empresa, também ajudam a diminuir custos.

– A nossa atividade necessita intensivamente de capital, mão de obra e energia. É uma atividade potencialmente poluidora, então sem sustentabilidade não é possível mantê-la – afirma o presidente da Dohler, José Mário Gomes Ribeiro.

Reconhecer os impactos ambientais da indústria é o primeiro passo para descobrir formas de revertê-los ou amenizá-los. A Döhler possui sua própria estação de efluentes, o que minimiza os riscos de poluição já que os despejos passam pelo tratamento correto. A água usada nos processos da fábrica passa por um mecanismo moderno de tratamento de efluentes antes de voltar limpa à natureza.

– Eu reutilizo 30% de toda água que capto em procedimentos internos. Depois, trato todo o efluente antes de despejá-lo nas valas de drenagem que passam perto da empresa. Os efluentes, depois de tratados, atendem toda a legislação pertinente – comenta José Mário.

Tratamento de água na sede da empresa (Foto: Acervo Döhler )Tratamento de água na sede da empresa (Foto: Acervo Döhler )

Tratamento de água na sede da empresa (Foto: Acervo Döhler )

Além do tratamento correto da água e dos resíduos, outros procedimentos da fábrica recebem o destino correto. O algodão recebido pela fábrica é inteiramente tratado e as impurezas – restos de fios que a empresa não utiliza nas suas linhas de produção – servem de matéria prima para outras indústrias, para as quais são vendidas.

A matriz energética da Döhler também é sustentável: 75% dela é composta por gás natural que é um insumo considerado limpo. Os outros 25% ficam por conta da energia térmica proveniente da biomassa e de resíduos gerados na empresa, como limpeza da tecelagem e fiação.

A sustentabilidade está no DNA da Döhler e seus esforços se refletem nos diversos prêmios e reconhecimentos que a empresa já recebeu.

– A sustentabilidade é uma prática necessária em nossa atividade, somente assim viabilizamos aquilo que produzimos. Praticamos a sustentabilidade a mais de trinta anos e cada vez mais – finaliza José Mario.

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Até 2030, a estimativa é que 10% da energia produzida no Brasil seja solar, aquela produzida através de placas fotovoltaicas. E a construção civil será fundamental nesse processo. Grande parte da energia limpa virá do alto de edifícios, dos telhados de casas, de prédios comerciais, de indústrias, shoppings e estacionamentos. Essas construções funcionarão como edificações-usinas, uma prática pra lá de sustentável.

De Norte a Sul do país, cada vez mais o compromisso com o meio ambiente ganha espaço na hora de começar uma obra. É o que se costuma chamar de projeto inteligente. Não necessariamente precisa ser algo sofisticado. Pode ser uma janela bem posicionada, que garanta maior entrada de luz e ventilação. É o edifício híbrido, com apartamentos residenciais e salas de coworking, reduzindo deslocamentos dos moradores. Ou até mesmo a reutilização de pneus no recobrimento asfáltico.

São muitas as soluções, ações, atitudes que hoje podem ser classificadas como sustentáveis em um canteiro de obras. A indústria da construção vem investido em tecnologia para oferecer às empreiteiras materiais com longa vida útil, menos poluentes e gerando menos resíduos. Por sua vez, durante a obra, arquitetos e engenheiros põem de pé boas práticas como telhados verdes, inclusão de energias renováveis e uso de isolantes térmicos. Posturas que fazem bem ao meio ambiente e trazem conforto aos clientes, cada vez mais exigentes e comprometidos com um futuro sustentável.

Edificações-geradoras

A expansão da geração fotovoltaica, por exemplo, vai fazer com que as edificações deixem de ser simplesmente consumidoras de energia. A ideia é que elas se transformem em geradoras de eletricidade. O aprimoramento das tecnologias e a queda nos custos nos próximos anos devem fazer com o que o Brasil consiga expandir o uso. A demanda é crescente no país, tem avançado em média 300% ao ano desde 2015, conforme estimativa da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica.

A energia solar térmica, utilizada em sistemas de aquecimento de água, também é perfeitamente viável e tem alta adesão sempre que o balanço de disponibilidade de áreas para captação da energia (local para a instalação das placas) se equilibra com a demanda por água quente e a disponibilidade de insolação.

Na opinião de Clarice Degani, engenheira e consultora de projetos para a área de Sustentabilidade do Secovi-SP e do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável, o tema deixou de ser visto como simplesmente a adoção de medidas ecológicas ou de mitigação de impactos ambientais. Hoje, o termo sustentabilidade deve ser visto de uma forma mais ampla, porém associado a desempenho e inovação tecnológica.

Nesse campo, tem muita coisa boa que veio para ficar. Segundo Clarice, o desenvolvimento de projetos pelo processo BIM (Building Information Modeling – Modelagem de Informações da Construção) e a realização de simulações de desempenho para conforto e eficiência energética já são realidade.

Prédios cada vez mais inteligentes

Mas nem só de novidades e alta tecnologia se alimenta o setor da construção civil. Boas práticas como o uso de brises para trazer conforto térmico aos moradores, como existe no edifício Copan, em São Paulo, projetado na década de 50, continuam atuais. “Os brises são soluções para evitar a incidência solar direta e diminuir o uso de ar-condicionado”, detalha Carlos Borges, vice-presidente de Tecnologia e Sustentabilidade do Secovi-SP. “A própria iluminação natural, o posicionamento correto da edificação contribui da mesma forma”, complementa.

Países ricos como a Inglaterra, destaca Borges, já estão caminhando para um prédio considerado de energia zero. Toda energia consumida será produzida por ele. Além das opções tradicionais como cobertura de painel solar, os elevadores da edificação também serão geradores. “O atrito do sobe e desce do elevador vai gerar energia para alimentar os próprios elevadores”, revela.

É preciso mudar os hábitos, diminuir o impacto para garantir um futuro melhor para todos, afinal de contas, a população do planeta já ultrapassou os 7,5 bilhões de pessoas. Essa é a opinião de Olavo Kucker Arantes, presidente do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS) – entidade que se movimenta entre a academia, a indústria e os órgãos de governo como Ministério do Meio Ambiente e o de Minas e Energia.

Através do conselho, Arantes ajudou a desenvolver a ferramenta que desde 2011 auxilia as empresas a selecionar fornecedores seguindo critérios de responsabilidade social e ambiental. É um check list em seis passos que verifica a idoneidade do negócio, desde a licença ambiental até a existência de propaganda enganosa. “Ser sustentável não é só montar um projeto bacana, diminuir os resíduos na obra. Passa também pela escolha dos fornecedores”, destaca Arantes, engenheiro de produção civil.

Bons ventos partem das universidades

Na academia, há um número grande de pessoas que vão para fora, se especializam e depois voltam. Prova disso é que o Brasil está na quarta posição em volume de projetos no ranking mundial de construções sustentáveis, que reúne 165 países.

De acordo com o Green Building Council Brasil, um projeto sustentável médio poderá reduzir em 40% o uso de água, 35% em CO2 e 65% em desperdício. A tecnologia e a sustentabilidade devem caminhar de mãos dadas porque os prédios que estão sendo erguidos hoje terão que ser adaptáveis às novidades no setor daqui a 50 anos. “A sustentabilidade não pode ser só para bonitinho, cada vez mais tem que ter impacto no bolso, no sentido de pagar um valor menor de condomínio porque parte da energia será gerada no local, assim como a água, que pode ser de reuso”, exemplifica José Carlos Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).

Ele também chama atenção para a presença de carregadores de carros elétricos nos prédios. “Hoje isso só acontece em construções de alto padrão, mas será uma realidade, uma necessidade daqui a 50 anos”, projeta.

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Com que frequência você lava suas calças jeans? Quando viaja de avião, são viagens longas? Prefere comprar tomates embalados, avulsos ou em conserva? Quantas vezes por semana você come carne?

As perguntas soam, a princípio, muito específicas. Mas são essenciais para entender o rastro que seus hábitos de consumo e escolhas individuais deixam no planeta.

Foi em uma conversa com o marido, no sofá de casa, que a designer industrial e escritora holandesa Babette Porcelijn percebeu que, apesar de ser especialista na cadeia produtiva de produtos industrializados, não entendia exatamente qual era o impacto do seu estilo de vida no planeta.

“Ele me contou que os 16 maiores navios porta-contêineres do mundo juntos emitem a mesma quantidade de enxofre que todos os carros que circulam no mundo! E que perdemos cerca de 27 milhões de árvores por dia por causa do desmatamento”, disse à BBC Brasil.

“Isso mudou minha maneira de ver nosso impacto ambiental, porque eu achava que estávamos fazendo um ótimo trabalho, pelo menos aqui na Holanda”.

Ao pesquisar sobre o tema, Porcelijn percebeu que pelo menos em países ricos como Holanda e Estados Unidos mais de um quarto da “pegada ecológica” de cada ser humano é perceptível no dia a dia.

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O resto está embutido no ciclo de vida de produtos e serviços – da extração de matérias-primas, passando pelo transporte, até o descarte.

Conseguimos refletir, por exemplo, sobre a energia elétrica gasta para carregar nossos celulares, laptops e outros aparelhos eletrônicos.

Mas falamos pouco sobre as consequências da mineração dos metais necessários para produzi-los ou a quantidade de água utilizada nesse processo.

A principal revelação da pesquisa, conta Porcelijn, é que “o maior impacto ambiental não é causado exatamente pelos carros que dirigimos ou pelo ar-condicionado das casas e, sim, por produtos que consumimos – livros, eletrônicos, roupas, alimentos”. Pelo menos na Holanda e nos Estados Unidos.

O resultado do estudo foi compilado no livro Hidden Impact (“Impacto oculto”, em tradução livre), no qual a autora também dá dicas de como reduzir, de forma prática, o impacto provocado pelas escolhas cotidianas. E sem que seja preciso, necessariamente, mudar radicalmente de hábitos da noite para o dia.

Desde então, a holandesa se dedica em tempo integral a projetos de consultoria e análises de impacto ambiental. Ela esteve em São Paulo para participar do evento What Design Can Do (“O que o design pode fazer”, em tradução livre).

Como calcular?

O que Porcelijn considera como impacto é composto de elementos como uso da água e da terra, desmatamento, mineração e processamento de matérias-primas, esgotamento de recursos naturais, perda de biodiversidade, emissões de gases de efeito estufa, lixo e uso de combustíveis fósseis.

“O que eu quero fazer é monitorar todo o sistema e incluir todo tipo de impacto. Não só no clima, mas também na natureza, na biodiversidade, todo tipo de poluição”, explica.

“Eu não conseguia encontrar esses dados em lugar nenhum, o que achei muito esquisito. É esse o tipo de coisa que queremos e precisamos saber. Eu tive que ir muito fundo na pesquisa e contratei empresas especializadas para me ajudar.”

Para calcular o impacto da carne, por exemplo, é preciso levar em conta a produção de alimento para o gado e o desmatamento causado para criar o pasto.

Para saber o real impacto de um carro, é necessário incluir a poluição causada pela mineração dos metais utilizados.

No caso de uma calça jeans, deve-se considerar a água utilizada na produção de algodão e também na lavagem do tecido.

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A tarefa parece impossível e, de fato, a escritora holandesa reconhece que ainda há muito a ser calculado.

“Quando eu procurei especialistas, eles me disseram que nenhum método científico atual inclui todos os tipos de impacto. Mas como podemos superar o maior desafio dos nossos tempos se não conseguimos investigá-lo de verdade?”, questiona.

“Resolvi seguir em frente assim mesmo.”

Por isso, ela explica, os cálculos utilizados em seu método são aproximados.

Para efeito de comparação, a designer fez os mesmos cálculos para a Holanda e para os Estados Unidos, quando conseguiu obter as informações.

“É meio chocante, porque lá tudo é o dobro”, diz.

Ela conta que está, no momento, procurando empresas que a ajudem a fazer as mesmas estimativas para o Brasil.

A pedido da BBC Brasil, ela adaptou alguns gráficos produzidos durante a sua pesquisa e converteu os dados para as unidades de medida brasileiras.

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Image captionBabette Porcelijn diz que não é preciso ser radical para reduzir pegada ecológica individual | Crédito: Johannes Abeling Photography

Consequências ‘surpresa’

Ao escolher estudos de caso para exemplificar o impacto oculto do nosso consumo, Porcelijn diz ter se surpreendido com dados que desafiavam o senso comum a respeito do tema.

No exemplo da calça jeans, ela descobriu que o maior prejuízo ao meio ambiente está escondido no cultivo de algodão. Mas o uso de máquinas de lavar e de secar, que costuma não ser considerado, emite cerca de 12,5 kg de CO2 por lavagem, além do gasto de ao menos 50 litros de água.

No caso dos alimentos, a pesquisa revelou que frutas e legumes em conserva ou transformados em molhos, como o tomate, podem ter menos impacto ambiental do que os frescos.

A autora explica: normalmente, o impacto da produção de vegetais no ecossistema é pequeno, incluindo eventuais embalagens plásticas. O problema se encontra, no entanto, no desperdício que acontece do momento da colheita até a chegada ao prato do consumidor.

“Perder um tomate tem um impacto muito mais negativo do que comprar tomates embalados. A embalagem na verdade, se não for excessiva, pode ser boa, se considerarmos que ela impede a perda”, diz.

Mais de um terço da comida produzida nunca chega ao seu prato. No caso das frutas, legumes e verduras, a perda chega a 50% das colheitas. Por isso, as conservas – que são feitas com vegetais frescos logo após serem colhidos e têm perda menor – acabam sendo mais vantajosas para o meio ambiente.

Parte desse não aproveitamento acontece em casa, com a comida que estraga na geladeira ou é deixada no prato. Porcelijn calculou também esse impacto: se não desperdiçássemos nenhum alimento, nossa pegada ecológica diminuiria cerca de 15% para comida em geral e até 17% considerando só os vegetais.

Uma das dicas da designer industrial é fazer um calendário com as frutas, legumes e verduras de cada estação e procurar comprá-los de produtores locais – localizados a até 2 mil quilômetros de distância, para diminuir o impacto do transporte. Se quiser algum que esteja fora de época, cujo impacto para produzir é maior, prefira a conserva.

Outra boa ideia, segundo Porcelijn, é comprar produtos que estejam perto do vencimento e consumi-los rapidamente, para evitar que o supermercado jogue no lixo. E vale a pena ficar de olho em embalagens excessivas.

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Os meios de transporte também foram computados no cálculo de Porcelijn, com mais uma revelação surpreendente: caso a intenção seja diminuir realmente o seu impacto negativo no mundo, vale reduzir as viagens longas de avião.

Apesar de, no total, carros poluírem mais por quilômetro rodado que aviões, os especialistas consultados pela designer ressaltam que a possibilidade de viajar de avião aumentou as distâncias que percorremos.

Por isso, eles fizeram uma comparação entre diferentes meios de transporte para uma viagem de 6,5 horas. O resultado: aviões poluem mais, pelo menos em viagens mais longas. Para outro estado pode valer a pena. Mas férias em Dubai? Pense no impacto, sugere Babette Porcelijn.

Caso você realmente não queira abrir mão das férias em outro continente, vale calcular o plantio de árvores necessário para compensar as emissões pela duração do voo, ou apoiar alguma organização que faça esse trabalho.

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Por onde começar?

A designer holandesa também se especializou em dar dicas para tentar mitigar a pegada ecológica de cada um, sem que isso tenha que significar adotar uma vida “ecoréxica”, segundo ela.

“Para mim, é importante começar pelas coisas grandes, que causam mais impacto. Mudá-las é mais eficiente”, afirma.

Desde que se debruçou sobre o tema, Porcelijn inseriu algumas dessas mudanças na rotina de sua família.

“Só compro o que realmente preciso e, se eu puder, de segunda mão, especialmente roupas; parei de comer carne e também não tenho mais carro e não pego aviões, a não ser que isso seja para fazer mais bem do que mal. Estou indo de avião para São Paulo porque acho que alcançar pessoas aí e eventualmente ajudá-las a mudar suas vidas faz mais bem do que mal”, afirma.

“Nas férias, viajamos muito de bicicleta. É uma aventura incrível e nossos filhos também adoram. A família ficou mais próxima.”

A designer acredita que deixar de comer carne – o alimento mais poluente – pode ser mais prioritário para o meio ambiente do que deixar de ter um carro.

“Na Holanda certamente esse é o caso, e pelo que ouço do Brasil, também”, diz.

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O primeiro passo, segundo ela, é tornar-se sustentável e reduzir o impacto relativo aos seus hábitos pessoais.

De acordo a ONU, a população da Terra será de cerca de 10 bilhões de pessoas em 2050, caso o ritmo de crescimento se mantenha.

Já a economia global em 2050 será 2,7 vezes maior do que hoje, segundo a consultoria PricewaterhouseCoopers. E, de acordo com a ONG Global Footprint Network, a população atual vive como se tivesse os recursos de 1,6 planeta Terra.

De acordo com o cálculo de Porcelijn, usando as duas estatísticas, chegaríamos a 2050 precisando de 4,3 Terras para sustentar nosso estilo de vida.

“Se vivermos de acordo com os limites do nosso planeta, já seremos sustentáveis”, afirma.

No caso do Brasil, cuja população vive como se tivesse 1,8 planeta Terra, viver no limite seria reduzir o impacto médio total para cerca de metade do que ele é atualmente.

Para quem pretende ir mais além, ser “econeutro” envolve fazer compostagem, plantar árvores, investir em energia renovável e apoiar financeiramente organizações ambientais, por exemplo.

O nível três, “ecopositivo”, significa trabalhar para que sua influência na mudança de hábitos das pessoas ao seu redor – em casa, no trabalho e em outros grupos – seja maior do que seu impacto no mundo como consumidor.

Menos é mais

O impacto negativo está, inevitavelmente, em todos os produtos que consumimos e atividades que praticamos. A holandesa ressalta, no entanto, que a mudança não deve assustar.

“O truque é: mesmo que você ainda faça tudo o que normalmente faz, faça menos. Por exemplo, pode comer a metade de uma porção de carne, e não essas enormes. Ou não comer todo dia, mas só uma vez por semana”, diz.

“Depois de começar a adotar essas reduções, pode escolher opções que tenham menos impacto. No caso da carne, por exemplo, a bovina tem o maior impacto. Frango já seria melhor.”

Para Porcelijn, também é preciso combater o mito de que “tudo o que é orgânico é melhor” na hora de mudar o estilo de vida.

“A carne orgânica, por exemplo, nem sempre é a melhor escolha. Os dados que recolhi mostram que os animais vivem mais, mas geralmente têm um rendimento menor e necessitam de mais espaço e mais alimento, que é o fator mais poluente”, explica.

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“Ainda precisamos fazer com que a produção de orgânicos seja algo muito mais eficiente do que é. E também melhorar a agricultura e pecuária intensivas. Acho que os dois processos deveriam ser combinados e teríamos um bom resultado. Até lá, tenha cuidado.”

A escolha do material das roupas também é importante.

“Eu achava que roupas sintéticas seriam melhores, porque a produção delas é menos poluente do que as de algodão, lã ou seda. Mas o problema é que, quando você lava, os tecidos sintéticos liberam microplásticos na água”, explica.

“Se você sabe que determinado tecido é produzido de maneira menos poluente, ótimo. Mas é melhor comprar menos roupas, do que simplesmente mudar para roupas orgânicas.”

Críticos afirmam que a ideia de abrir mão de tantos produtos e atividades ainda é elitista – já que, em sua maioria, produtos orgânicos ou sustentáveis costumam ser mais caros.

A autora diz, no entanto, que são as pessoas com maior renda que devem, de fato, se preocupar mais com seus hábitos.

“Quanto mais dinheiro você tem, mais impacto pode comprar. Então os ricos devem estar mais atentos a isso do que os pobres. E, de modo geral, percebo que minha vida é bem mais barata com o novo estilo que adotei.”

“Tento dizer quais mudanças seriam as mais eficientes. Mas não julgo o comportamento das pessoas. Só acho que não temos tempo a perder.”

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agricultor gaúcho Cândido Dutra é membro da terceira geração de uma família de produtores de arroz em Capivari do Sul, a 75 quilômetros de Porto Alegre. Hoje, ele prepara os filhos para assumir um negócio cada vez mais desafiador. Nos últimos anos, o avanço do arroz-vermelho, praga que derruba a produtividade do grão branco, parecia pôr em risco a propriedade de quase 1 000 hectares de Dutra e de boa parte dos produtores gaúchos de arroz — hoje, 83% dos arrozais têm alguma incidência da praga. “Quando o arroz-vermelho toma conta da lavoura, a indústria rejeita o nosso produto”, diz Dutra. Há anos os agricultores tentam soluções, que duram pouco — indício de um desequilíbrio ambiental. “Cada vez eram necessários mais insumos para o cultivo de arroz e a produção era cada vez menor”, diz Rodrigo Schoenfeld, gerente da divisão de pesquisa do Instituto Rio Grandense do Arroz, o Irga. “Não era sustentável do ponto de vista financeiro nem ambiental.” A solução para conter a infestação foi apostar em um aliado, a soja. A ideia: alternar áreas de arroz com o cultivo de soja para fazer o controle biológico e o preparo do solo. Isso não era exatamente uma novidade para os gaúchos. Já nos anos 70 alguns fazendeiros testavam a soja na rotação das lavouras do arroz. Na última década, muitos fazendeiros adotaram o grão e outras culturas na alternância, mas os resultados ainda estavam muito aquém do esperado. O problema é que a soja, que tão bem se desenvolve no cerrado, não sobrevive em áreas alagadas, onde tradicionalmente é cultivado quase todo o arroz gaúcho. Em 2015, a saída foi desenvolver sementes mais rústicas de soja para a região, criadas pelo Irga em parceria com empresas como Bayer e Syngenta, utilizar intensivamente adubação e adotar esquemas eficientes de drenagem. Hoje, 68 000 hectares de arroz utilizam o sistema mais avançado de rotação das -duas lavouras — o que equivale a 6% dos arrozais gaúchos. Nessas áreas, a produtividade do arroz é 11% superior. A soja por si só também virou um bom negócio. “Por causa dos bons preços, hoje a soja é mais rentável, mas somos produtores de arroz”, diz Dutra, que planta atual-mente 400 hectares de soja.

A inventividade dos produtores gaúchos na rotação de arroz e soja tem uma razão de ser muito simples: vai ser necessário cuidar muito bem da terra e extrair o melhor dela para que a demanda por comida no futuro seja atendida. É por isso que a palavra da moda nas conversas de quem faz a diferença no agronegócio é “sustentabilidade”. O crescimento da população mundial — hoje já se fala em 11 bilhões de pessoas por volta de 2100 — e a expansão da classe média em nações emergentes, como a China, deverão ampliar a necessidade de produzir mais alimento. Nas contas da FAO, órgão das Nações Unidas para a segurança alimentar, será necessário aumentar em 60% a produção de comida até 2050. Assim como aconteceu nas últimas décadas, novas tecnologias deverão ampliar a produtividade do campo. Mas, ao contrário do visto até agora, não há mais abundância de matas nativas para ser convertidas em terras aráveis. Mesmo onde ainda há fronteiras agrícolas virgens para ser exploradas, como é o caso do Brasil, já sai mais caro desbravar novas áreas do que recuperar terras degradadas e destiná-las à produção agropecuária — um fator econômico que, felizmente, pode ajudar a preservar a floresta. No Pará, que vive intensamente o dilema da conservação, transformar floresta em lavoura custa, em média, 8 000 reais o hectare, segundo cálculo da Scot Consultoria. Já a conversão de pastagens comprometidas em áreas para a produção de milho e soja sai por 3 000 reais o hectare. Como a redução de custos é uma obsessão para os produtores, que dependem de variáveis difíceis de prever, como o clima ou a cotação da matéria-prima em mercados internacionais, é bem provável que mais e mais áreas degradadas sejam aproveitadas para a agricultura — segundo a FAO, 80% do aumento na produção de alimentos esperado até 2050 virá dessas regiões. Do ponto de vista do meio ambiente, trata-se de um ótimo negócio, pois, assim, reduz-se a pressão por desmatar o que resta. “Na busca por eficiência, o agricultor tem de ser conservacionista e utilizar técnicas mais sustentáveis de manejo”, diz Alcides Torres, sócio da Scot Consultoria.


Galletti, do Minerva: rastreamento dos fornecedores de gado para acessar mercados internacionais | Ricardo Benichio

Tudo indica que o Brasil está na vanguarda da lavoura que ajudará a conservar o planeta no futuro. O país tem hoje uma das maiores experiências do mundo nesse sentido com a rede Integração Lavoura, Floresta e Pecuária, uma parceria público-privada da Embrapa, órgão de pesquisas agrícolas do governo federal, com empresas do agronegócio, como a montadora de implementos agrícolas John Deere e a indústria química Dow. O trabalho dos técnicos da Embrapa e dos parceiros privados é convencer o pecuarista a não deixar a terra parada um minuto sequer. No programa, algumas áreas de pastagens degradadas de uma fazenda, que normalmente têm infestações de cupins e pouca vegetação para o gado, recebem o plantio de espécies de grãos como soja e milho geneticamente modificados para resistir a solos pobres. Outra parte é reflorestada e abriga o rebanho na safra, que ocorre nos meses de primavera e verão. A boiada volta às pastagens em seguida e colabora para a adubação do próximo plantio com os dejetos que deixa no solo. Desde a formação da rede, em meados dos anos 90, estudos de campo feitos pela Embrapa mostram os ganhos do sistema. As folhagens deixadas após a safra permitem alimentar melhor o gado, aumentando o ganho de peso — em média, de 40 arrobas por hectare nas fazendas de integração lavoura-pecuária, seis vezes mais do que a média brasileira. A criação de bovinos reduz a necessidade de fertilizantes e nutrientes químicos no solo. O resultado: maior rentabilidade para o produtor. Uma comparação entre duas fazendas em Mato Grosso mostrou que a propriedade com integração lucrou, em média, 230 reais por hectare entre 2005 e 2012. A outra, que seguiu um manejo convencional, deu prejuízo de 116 reais no período.


REDUÇÃO DO EFEITO ESTUFA

No fim das contas, a integração entre lavoura, pecuária e floresta poderá permitir um salto de produtividade e sustentabilidade na agricultura brasileira. Além de prover mais nutrição aos animais, a abundância de mato no pasto e de florestas ajuda a resgatar os gases emitidos pela boiada durante a respiração e a ruminação da comida — também responsáveis pelo efeito estufa. Segundo dados da Embrapa, o agronegócio brasileiro responde por 37% da emissão de gases no país causadores do aquecimento global e o restante vem de indústrias e do transporte. Do total referente ao campo, 15% vêm da pecuária — número que não considera o sequestro de gases devido à fotossíntese de pastagens que germinam por onde passa a boiada. Dito isso, desde 2005, estima-se que 35 milhões de toneladas de gases tenham sido sequestrados nas propriedades que adotaram a integração, um patamar que o governo federal, que tem metas de redução de gases de efeito estufa a cumprir por causa de acordos internacionais do clima, só esperava atingir após 2020. Tudo indica que os ganhos deverão se multiplicar pelos próximos anos: até o fim desta década, a área de integração deverá crescer 30% e chegar a 19 milhões de hectares, praticamente um terço da área destinada à agricultura no país hoje. Considerando que 62% das terras são protegidas de alguma maneira pelo Código Florestal, a alternativa será intensificar a produção em terras pouco produtivas, como as áreas de pastagens degradadas. “O Brasil tem um potencial gigantesco de ampliar a produção de alimentos, seguindo o Código Florestal, sem degradação nem desmatamento”, diz Maurício Lopes, presidente da Embrapa.

As oportunidades abertas pela combinação de tecnologias para aumento da produtividade com práticas sustentáveis têm chamado a atenção das grandes empresas do agronegócio. Há quem cobre dos clientes um prêmio por gerir bem o meio ambiente. É o caso da Agropalma, empresa criada nos anos 80 pelo banqueiro Aloysio Faria e que prevê receitas de 1,2 bilhão de reais em 2018 com a venda do óleo tirado de palmeirais no Pará a clientes como Nestlé e General Mills, que o utilizam na produção de itens como batom, xampu e sorvete. Trata-se de uma cultura acostumada a levar pedrada de ambientalistas: no passado, a extração dependia do desmatamento de vastas áreas de vegetação nativa para abrir espaço para as palmeiras  e de altas doses de pesticidas para garantir a produtividade. A má fama e o risco de ser substituído por óleos de origem menos visada, como o de girassol, provocaram uma corrida das fabricantes de palma pela conservação. Na Agropalma, a abertura de novas lavouras cessou em meados dos anos 90. De lá para cá, técnicas modernas de manejo, como o plantio de leguminosas para conter a erosão, e o uso de arapucas com feromônio para atrair e matar pragas permitiram aumentar a produtividade em quase 70% e fazer as pazes com os ambientalistas. Atualmente, a produção anual é certificada com o selo “Desmatamento zero”, da ONG Greenpeace. A preocupação ambiental ampliou a demanda pelo óleo da Agropalma, que cobra até 10% mais do que a concorrência. “Nosso óleo é disputado a tapa em mercados com legislação ambiental estrita, como a Alemanha”, diz Marcello Brito, diretor da Agropalma. Em alguns setores do agronegócio brasileiro, como é o caso da indústria da carne, seguir protocolos internacionais de cuidado com o meio ambiente é uma precondição para as empresas brasileiras acessarem mercados. Por isso, os três maiores frigoríficos do país, JBS, Marfrig e Minerva, têm programas para rastrear a cadeia de fornecedores da carne. O Minerva, que implantou o monitoramento em 2009, desde o ano passado tem ampliado um sistema de imagens por satélite para coibir o fornecimento de gado vindo de áreas desmatadas da Amazônia. Atualmente, 98% das propriedades na região com as quais negocia são vigiadas dessa maneira, o que permite vender a gigantes do fast-food, como Subway. “São empresas que atuam globalmente e exigem padrões altos de sustentabilidade”, diz Fernando Galletti de Queiroz, presidente do Minerva.


Toque para ampliar

Da mesma forma que cuidar do planeta pode ser uma oportunidade para as grandes do agronegócio, há uma porção de startups surgindo com a missão de salvar o mundo e aumentar a produção de alimentos. Exemplo disso é que a Embrapa já organizou um desafio de ideias sobre o tema — o chamado hackathon —, que teve 63 inscrições para o evento realizado no fim de agosto em Londrina, no interior paranaense. Quem aposta em mais tecnologia e sustentabilidade está vendo um mercado promissor. É o caso da gaúcha Aegro, que mantém um aplicativo com mapas da fazenda elaborados com base em dados coletados por sensores. A finalidade? Mostrar, em tempo real, as áreas que, de fato, precisam de uma pulverização química — reduzindo, assim, a aplicação desnecessária de agrotóxicos na natureza. No início de dezembro, a Aegro recebeu investimentos de 5 milhões de reais da SP Ventures, fundo que tem como cotista a Fapesp, fundação paulista de apoio à pesquisa científica. Além disso, na mesma semana, o aplicativo estreou no Climate FieldView, uma plataforma online para novas tecnologias agrícolas mantida pela fabricante de sementes Monsanto. As receitas da Aegro, que dependem de uma anuidade a partir de 2 reais por hectare, devem se multiplicar por 6 no ano que vem. “A expectativa é chegar a 3,5 milhões de reais”, diz o cientista da computação Pedro Dusso, de 29 anos, que abriu a empresa com colegas de faculdade em 2015.

Fazer um agronegócio mais produtivo e sustentável não depende apenas de novas tecnologias e da vontade de empresas e produtores. O estágio de desenvolvimento das propriedades brasileiras é muito desigual. Metade da área destinada à pecuária no país não faz uso sequer de suplementação mineral no solo. “O agricultor precisa ter assistência técnica para que consiga recuperar as áreas que foram desmatadas”, diz Rodrigo Lima, diretor da consultoria Agroícone. “No cerrado há 11 milhões de hectares de pastagens aptas para a produção agrícola, mas que aguardam políticas públicas melhores.” Sim, há muito por fazer. Mas saber a direção certa aonde se quer chegar é um ótimo começo. 

Colheita-Agrofotovoltaico

Até agora, a área cultivada era designada para fotovoltaica ou fotossíntese, ou seja, para gerar eletricidade ou cultivar. Um projeto piloto agrofotovoltaico (APV) perto do Lago de Constança, no entanto, demonstrou que ambos os usos são compatíveis. O uso duplo da terra é eficiente em termos de recursos, reduz a concorrência pela terra e, adicionalmente, abre uma nova fonte de renda para os agricultores. Por um ano, o maior sistema APV na Alemanha está sendo testado na cooperativa agrícola Demeter Heggelbach.

No projeto de demonstração “Agrofotovoltaico – Uso de Terra Eficiente de Recursos” (APV-Resola) “liderado pelo Instituto Fraunhofer para Sistemas de Energia Solar ISE, os módulos solares para produção de eletricidade estão instalados diretamente acima de culturas que cobrem uma área de um terceiro hectare. Agora, a primeira colheita solar de energia e produção foi coletada em ambos os níveis.

O trigo de inverno, as batatas, o celeríaco e o trevo foram as primeiras culturas a serem testadas. A orientação sudoeste e a distância extra entre as linhas de cinco metros de altura dos módulos fotovoltaicos de vidro vidro bifacial garantiram que as culturas estavam expostas à radiação solar uniforme.

O sombreamento do módulo solar reduz o rendimento das culturas, mas o saldo total é positivo

Os resultados da primeira colheita foram, na sua maioria, promissores. “O rendimento de capim do capim do trevo na plataforma fotovoltaica foi apenas 5,3 % menos do que o plano de referência”, informa o Prof. Petera Högy, especialista em agricultura da Universidade de Hohenheim. As perdas de rendimento para batatas, trigo e celíacos são entre 18 a 19% e, portanto, um pouco maior “.

“Do ponto de vista da ciência agrícola, a agrofotovoltaica é uma solução promissora para aumentar a eficiência do uso da terra e a parcela de energia renovável fornecida pelo setor agrícola”, ressalta a Prof. Iris Lewandowski, Chefe do Departamento de Produtos Biobased e Culturas Energéticas, Universidade de Hohenheim.

Os especialistas concordam que, no entanto, é importante reunir mais experiência nos próximos anos e analisar outras culturas antes de chegar a conclusões finais.

 

Arranjo solar tem produção acima da média

 

Os módulos solares bifaciais 720 produzem eletricidade solar não apenas na parte da frente, mas também na parte de trás dos módulos fotovoltaicos com radiação solar refletida pelos arredores. Sob condições ambientais favoráveis, por exemplo, cobertura de neve, um rendimento de eletricidade adicional de vinte e cinco por cento pode ser alcançado. Do ponto de vista energético, o princípio da dupla utilização da agrofotovoltaica é muito mais eficiente do que apenas plantar culturas energéticas, contabilizando, afinal, 18 por cento do uso da terra agrícola na Alemanha.

Veja também:   Tesla anuncia primeiro projeto de armazenamento de energia solar e eólica do mundo

Com uma potência instalada de 194 quilowatts, a matriz fotovoltaica pode fornecer 62 casas de quatro pessoas com eletricidade. Nos primeiros doze meses, a matriz produziu eletricidade de 1266 quilowatts-hora por quilowatt instalado, um terço do que o valor médio de 950 kWh / kW na Alemanha.

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A produção de energia do campo experimental corresponde bem à carga de fazenda diária. Cerca de 40% da eletricidade produzida na fazenda foi usada diretamente para carregar os veículos elétricos e processar as colheitas colhidas.

No verão, a demanda de carga poderia ser quase completamente atendida pelo sistema fotovoltaico. Thomas Schmid e os outros agricultores de Demeter pretendem aumentar o seu autoconsumo até 70 por cento, otimizando o comportamento de consumo e instalando um sistema de armazenamento de eletricidade.

A eletricidade PV excedente é alimentada na Elektrizitätswerke Schönau, uma empresa de serviços elétricos com base em energia 100% renovável e parceira no projeto.

A eletricidade produzida pela planta Agrofotovoltaico é tanto auto-consumida quanto alimentada na rede.

A eletricidade produzida pela planta Agrofotovoltaico é tanto auto-consumida quanto alimentada na rede.

Projeto Agrofotovoltaico – Uso de Terra Eficiente de Recursos (APV Resola)

Uma vez que a ideia da agrofotovoltaica foi iniciada pela primeira vez pelo Prof. Adolf Goetzberger, que fundou o Fraunhofer ISE em 1981, várias grandes instalações APV foram instaladas em todo o mundo. Por outro lado, apenas algumas dessas plantas APV são designadas como sites de pesquisa.

No projeto “APV Resola”, os pesquisadores estão investigando os aspectos econômicos, técnicos, societários e ecológicos da tecnologia em uma planta piloto em condições reais pela primeira vez. O projeto de pesquisa é apoiado por fundos do Ministério Federal Alemão da Educação e Pesquisa (BMBF) e da Pesquisa para o Desenvolvimento Sustentável (FONA).

O objetivo do projeto é desenvolver a tecnologia do sistema APV em um produto pronto para o mercado. “Para fornecer a prova de conceito necessária antes da entrada no mercado, precisamos comparar outras aplicações técnico-econômicas da APV, demonstrar a transferibilidade para outras áreas regionais e também realizar sistemas maiores”, explica Stephan Schindele.

Por exemplo, diferentes aplicações possíveis devem ser exploradas em combinação com frutas, frutos do mar, lúpulo e lavouras e com as várias tecnologias, tais como armazenamento de energia, filmes especiais com células solares orgânicas e sistemas de tratamento de água solar fotovoltaica.

“Além do investimento da indústria e da política de pesquisa, as medidas políticas apropriadas que apoiam a tecnologia são de vital importância para uma entrada bem sucedida no mercado”, acrescenta Stephan Schindele. Já em 2014, Fraunhofer ISE e Wuppertal Institute.

 

*Com informações do Instituto Fraunhofer para Sistemas de Energia Solar

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Itaipu inaugurou o Centro de Inovação em Mobilidade Elétrica Sustentável (CI-MES). A inauguração do novo espaço aconteceu será dia 22/11,mesma data comemorativa da marca dos 2,5 bilhões de megawatts-hora acumulados.

O Centro de Inovação em Mobilidade Elétrica Sustentável (CI-MES) funcionará em um novo prédio construído próximo ao Galpão 5, onde Itaipu já desenvolvia o Programa Veículo Elétrico.

Espaço

O centro vai melhorar a infraestrutura dedicada às iniciativas desenvolvidas pela Itaipu no campo da mobilidade elétrica sustentável, especialmente no âmbito do Programa Veículo Elétrico.

A inauguração do novo espaço atende às diretrizes institucionais de contribuir para o desenvolvimento e a sustentabilidade do Brasil e do Paraguai. No espaço estará exposta parte da frota de veículos elétricos, de avião a ônibus.

O Programa Veículo Elétrico (VE) começou em Itaipu em 2006. Nesses 11 anos, já registrou vários avanços. Dentro das dependências da empresa foram montados 140 veículos em parceria com a Renault, Fiat e outros parceiros.

Frota de 100 veículos

Veículos com zero emissão: em Itaipu, frota supera uma centena de automóveis.

Na sua própria frota, Itaipu mantém 100 veículos elétricos, que vão desde carros de passeio, miniônibus, até um avião elétrico. Ainda neste ano, a binacional deve receber mais 20 unidades do Zoe – 2ª geração, com bateria Z.E. 40. Esse novo modelo tem o dobro de autonomia, podendo rodar 400 km sem recarga de bateria.

A Itaipu é uma das empresas pioneiras em difundir e investir a tecnologia do veículo elétrico. Inclusive, incentivando a criação de uma cadeia de fornecedores de componentes. Somente a utilização dos elétricos na usina evitou a emissão de 87 toneladas de CO2 nos últimos dez anos, o equivalente ao plantio de 498 árvores.

 

Curiosidades

O Twizy, um dos veículos da frota de Itaipu, foi lançado em 2012 e está presente em 35 países. O modelo ocupa o espaço de um automóvel de duas rodas, mas com a segurança de um carro, além de ser equipado com todas as tecnologias necessárias para veículos de passeio, como cinto de segurança e airbag. A autonomia é de 100 km. Com apenas 450 kg, o Twizy é pelo menos duas vezes mais leve que um carro convencional. Ele tem 2,34 m de comprimento e 1,23 m de largura. Já o Zoe, outro integrante da frota de VEs da binacional, é o mais vendido entre os veículos de passeio elétricos no Velho Continente, com cerca de 22 mil unidades comercializadas em 2016. A segunda geração terá bateria com o dobro de autonomia.

Outra agenda: 2,5 bilhões de MWh

Também no dia 22/11 a usina de Itaipu atingiu os 2,5 bilhões de megawatts-hora (MWh) de energia acumulada desde que a hidrelétrica entrou em operação, em maio de 1984. O Ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, e o presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira Júnior, participam de um evento protocolar no hall do Edifício da Produção, na usina, às 15h, com toda a Diretoria da Itaipu, para comemorar mais esse feito da usina, que mais gera energia no planeta. Autoridades paraguaias também estarão na celebração.

Fonte: Itaipu

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Nem os questionamentos ambientais e denúncias na área trabalhista tiram o interesse por títulos verdes da dívida, os chamados “green bonds”, emitidos por empresas e instituições financeiras brasileiras. O país lançou até hoje US$ 3,67 bilhões, em um total de nove emissões – a primeira delas feita em 2015 – feitas em um período de baixa atividade econômica e recomendações pouco otimistas por parte das agências de avaliação de risco em relação ao Brasil. Pelo apetite dos investidores estrangeiros, o volume poderia ser ainda maior.

No mundo, esse mercado já chega a US$ 221 bilhões, diz segundo relatório feito pela ONG Climate Bonds Initiative, divulgado recentemente. A estimativa é que, em 2020, o segmento movimente cerca de US$ 1 trilhão, cinco vezes mais do que o valor previsto para este ano.

Os “green bonds” são títulos da dívida emitidos por empresas ou bancos para viabilizar projetos que tenham impacto ambiental positivo. O único objetivo é financiar projetos sustentáveis. É feito um processo de verificação por uma consultoria especial, que avalia se os recursos obtidos com a emissão serão investidos em ações climáticas ou ambientais. No caso brasileiro, eles são direcionados especialmente ao financiamento de projetos de energia renovável.

Para as empresas e instituições financeiras, há uma série de vantagens na emissão de títulos verdes, como o aumento da visibilidade de seus projetos sustentáveis junto ao mercado de capitais, o reforço da estratégia de negócio em direção à pauta ecossustentável e a possibilidade de captar recursos em condições mais favoráveis do que em uma emissão tradicional de títulos da dívida. Na relação de brasileiras que optaram pelos “green bonds” estão BNDES, BRF, Fibria, Suzano, CPFL Energias Renováveis, Rio Energy, Omega Energia e Klabin.

Gustavo Pimentel, diretor da Sitawi Finanças do Bem, diz que os títulos verdes são uma boa opção para as empresas que procuram diminuir seus impactos negativos (na sociedade ou no meio ambiente) e, consequentemente, aumentar os impactos positivos. “Para isso, podem atrair investidores mais atentos a essas questões”, explica.

É o caso do BNDES, que em maio passado captou no exterior US$ 1 bilhão em títulos verdes. A procura foi cinco vezes maior que a oferta de títulos, conta André Carvalhal, chefe do Departamento de Captação de Mercado do banco. “Encontramos uma diversidade grande de perfis entre esses investidores, a maioria ‘verdes’, o que é muito bom, porque atrai o olhar para o banco de um público diferente. Ganha-se um benefício adicional ao abrir as portas do banco para outras possibilidades”, diz. Além dessa vantagem, o executivo conta que foi possível obter com a operação o menor custo adicional (spread) em relação ao tesouro dos últimos 10 anos.

Cerca de 70% do valor captado com os “green bonds” do BNDES já estão empregados em oito projetos de energia eólica no Nordeste. Até o início do ano o banco vai anunciar quais são as empresas contempladas com os recursos. Apesar da primeira operação com os títulos verdes ter sido recente, Carvalhal não descarta a possibilidade de voltar ao mercado ainda no primeiro semestre de 2018. “Existe uma demanda forte do mercado por esses títulos brasileiros. Os ‘green bonds’ sempre estarão no nosso radar para novas emissões”, afirma.

‘No DNA’ 

A Fibria passou um ano estudando como fazer a emissão de títulos verdes. Foram, ao todo, cerca de 300 pessoas envolvidas na operação, de diferentes áreas da companhia. O lançamento – US$ 700 milhões – foi feito em janeiro deste ano e 40% dos investidores eram focados em práticas de sustentabilidade. “Percebemos que havia um crescimento forte e consistente por esse tipo de papel e que fazia todo sentido seguir esse caminho, já que somos uma empresa que tem a sustentabilidade no DNA”, diz David Alegre, responsável pela tesouraria da companhia. O dinheiro captado já começou a ser investido na restauração de florestas nativas, em projetos de uso eficiente da água e de energia renovável.

Assim como no caso do BNDES, a procura foi muito maior que a oferta de títulos da Fibria – cinco vezes maior, segundo o executivo. “Para a empresa também foi uma grande oportunidade de divulgar nossos trabalhos de sustentabilidade e chamar a atenção desses investidores para nosso negócio”, diz.

Outra empresa do setor de papel e celulose que percebeu uma oportunidade nos “green bonds” foi a Suzano Papel e Celulose. Marcelo Bacci, diretor-executivo de Finanças e Relações com Investidores, conta que antes da emissão de R$ 1 bilhão em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) no mercado local, realizada em novembro do ano passado, a Suzano já havia sido pioneira na América Latina na emissão de ‘green bonds’ em dólares, com uma operação de US$ 500 milhões realizada em julho do ano passado. “O resultado das duas operações reforça a nossa percepção de que haverá um número crescente de investidores destinando recursos para esse tipo de títulos”, diz o executivo. “Por isso, temos certeza de que esse caminho será seguido por outras empresas.”

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Sim, nós temos informação. Vasta, clara, abrangente e que dá a exata medida de para aonde caminhamos como espécie humana. Já sabemos que 15% das emissões de gás do efeito estufa vêm de desmatamento, que o cerrado brasileiro está ameaçado pela agropecuária, que as queimadas em Portugal originadas pelas fabricantes de papel e celulose podem causar desequilíbrios no mundo todo. Mas até que ponto o setor produtivo está realmente comprometido em construir uma agenda prática que reverta gradual e sustentavelmente a atividade, permanecendo lucrativa mas que possibilite a vida humana em 2050? A resposta pode ser óbvia: o ponto de inflexão está no risco ao negócio e na perda da lucratividade. E já estamos nesta etapa.

O relatório “Do risco para a receita: a oportunidade de investimento para enfrentar o desmatamento corporativo”, divulgado nesta terça-feira (21) pela plataforma de divulgação ambiental global sem fins lucrativos, CDP, aponta crescimento do prejuízo das empresas listadas em bolsa que perderam US$ 941 bilhões em volume de negócios neste ano ante perda de US$ 906 bilhões no ano passado (alta de 3,8%). Os quase US$ 1 trilhão em volumes de negócios foram perdidos por empresas de capital aberto de 2016 para 2017 que tinham suas operações vinculadas às commodities que mais alimentam o desmatamento no mundo – pecuária, soja, madeira e óleo de palma.

Neste cenário, o Brasil ganha importância negativa, pois é o segundo maior produtor de pecuária e de soja no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Caso essas empresas e seus stakeholders ainda não estejam se movimentando para modificar o caminho que fazem e a forma que atuam, esses dados desenham um futuro próximo no qual a longevidade delas fica comprometida. Em resumo, o ponto da virada chegou no Brasil e no mundo todo.

Dados do relatório mostram que a região na qual as empresas têm o maior percentual de riscos diretos nos negócios ligados às commodities é a América Latina, com 67% das empresas com amplos riscos diretos na cadeia de operações. A região é seguida pelo grupo Europa, Oriente Médio e África (57%), Ásia/Pacífico (33%) e América do Norte (26%). De acordo com os dados do CDP, as empresas dependem das florestas e reconhecem que os impactos ambientais e sociais do desmatamento ameaçam reduzir lucros e aumentar os riscos. Ao afetar as avaliações da empresa e a capacidade delas de reembolsar a dívida, esses riscos são suportados pelos investidores, ao mesmo tempo que os afasta.

CDP é uma organização internacional sem fins lucrativos, formada por grandes investidores interessados na avaliação do desempenho das empresas em função dos desafios ambientais de mudanças climáticas, recursos hídricos e florestas. Atualmente é formada por 827 investidores que administram um total de US$ 100 trilhões em ativos. A organização tem ainda em sua base de respondentes mais de 570 cidades no mundo todo reportando seus dados em 2017. A partir desses dados, são produzidos materiais que reportam regularmente a evolução no uso de recursos hídricos e ambientais pelas empresas e cidades signatárias, como este sobre desmatamento.

No relatório de hoje sobre desmatamento, 87% das empresas que responderam ao questionamento reconhecem pelo menos um risco – e 32% já experimentaram impactos – associados à produção ou ao consumo de commodities de risco florestal.

As decisões que estão sendo tomadas hoje determinarão se seremos capazes de fazer uma transição para uma economia próspera, que trabalhe para as pessoas e para o planeta a longo prazo. Acreditando na possível e urgente mudança de cenário, o CDP Latin America realiza no dia 30 de novembro, em São Paulo, o Conexão CDP, evento que vai promover um diálogo com essa ótica entre investidores, empresas, cidades e governo, oferecendo protótipos de ideias e soluções para materializar a mudança que desejamos ver no mundo.

Além disso, neste ano será apresentado um infográfico inédito – que apresenta indicadores e dados de empresas e cidades na América Latina sobre como se preparam, monitoram e gerenciam seus recursos. Por meio dessa ferramenta será possível visualizar quais são as empresas que lideram em sustentabilidade na região e que tipo de estratégias elas utilizam ou estão desenhando para embarcar no único futuro possível, o da economia de baixo carbono.