Closeup shot of a man pouring a glass of fresh water from a kitchen faucet

Ao longo de dez meses a Orb Media realizou uma investigação sobre o plástico em água de torneiras em diversos lugares do mundo. Os resultados foram surpreendentes pois 83 por cento das amostras coletadas continham fibras de plástico, também chamadas de microplásticos. Segundo os autores do estudo, estamos vivendo na ‘Era Plástica’ e a contaminação provavelmente não está limitada somente à nossa água.

Segundo a Orb Media este foi o primeiro estudo científico público do tipo e contou com a parceria de um pesquisador da Escola de Saúde Pública da Universidade de Minnesota, nos EUA. Os autores da pesquisa testaram a água da torneira nos Estados Unidos, Europa, Indonésia, Índia, Líbano, Uganda, Equador e Brasil.

Segundo os pesquisadores, os microplásticos que contaminam nossas águas vêm de uma variedade de fontes, entre elas estão as roupas sintéticas, as poeiras de pneus e até mesmo plásticos encontrados em produtos de higiene e beleza, como pastas de dente e cosméticos. “Foram produzidos mais plástico nos últimos dez anos do que em todo o século passado”, alerta o relatório.

Microplástico presente em produtos esfoliantes | Foto: iStock by Getty Images

No estudo os Estados Unidos foram os recordistas com 94% de amostras com plástico na água da torneira. Os pesquisadores detectaram as fibras plásticas até mesmo na sede da Agência de Proteção Ambiental norte-americana, edifícios do Congresso e na Trump Tower em Nova York. Já o Líbano e a Índia apresentaram as maiores quantidades de contaminação. A Europa tinha o mínimo, porém, os plásticos foram encontrados em 72% das amostras lá.

No Brasil

Em parceria com a Orbi Media, o jornal à Folha também participou do estudo enviando 10 amostras de água da cidades de São Paulo. Segundo matéria publicada no site do jornal, 9 entre 10 amostras continham fragmentos de plástico com números semelhantes aos encontrados ao redor do mundo.

O texto enfatiza que apesar dos brasileiros não possuírem o hábito de beber água diretamente da torneira, ainda a utilizamos para cozinhar. Além disso, os pesquisadores alertam que os plásticos provavelmente já estão presentes em nossa comida.

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Muito já foi falado sobre a afinidade entre as brasileiras e os produtos de beleza. O terceiro maior mercado de cosméticos do mundo é também o lar das mulheres mais vaidosas e um importante centro de tendências para a indústria global. No entanto, o alto grau de consciência ecológica do consumidor brasileiro e a forma como ele avalia iniciativas em prol da sustentabilidade ainda não foram devidamente promovidos ou explorados por fabricantes de cosméticos nacionais e internacionais.
Uma pesquisa realizada pela GfK revelou que mais da metade dos brasileiros considera o impacto ambiental dos cosméticos em suas cestas de compras – o maior percentual registrado entre os países analisados. Ao promover um consumo mais sustentável, os consumidores também se tornaram mais exigentes e rigorosos em seu processo de compra. Um estudo do Instituto Akatu destaca os cinco principais aspectos que os consumidores brasileiros consideram ao escolher um produto: “não testado em animais” (52%), “socialmente responsável” (46%), “comprometido com a preservação do meio ambiente” (46%), “fabricado com baixo consumo de energia” (44%) e “certificado para condições dignas de trabalho” (43%).

A beleza tem uma forte associação com o conceito “verde” no Brasil, mas será que a indústria dá conta do recado? Se depender das gigantes Natura e O Boticário, não há dúvida. Líder em cosméticos na América Latina, a Natura é a única empresa de grande porte a neutralizar suas emissões de carbono. Em 2013, a companhia foi eleita a segunda mais sustentável do planeta pelo grupo de pesquisas canadense Corporate Knights, que analisou suas diversas iniciativas sustentáveis. O compromisso com ações de responsabilidade social empresarial e desenvolvimento sustentável também é prioridade para O Boticário. Nos últimos 24 anos, a Fundação Grupo Boticário apoiou mais de 1.400 iniciativas de 480 instituições, além de proteger 11 mil hectares de Mata Atlântica e Cerrado, dois dos biomas mais ameaçados do país.

Mas o “fator verde” não é privilégio exclusivo das gigantes. Fundada em 1995, a Surya Brasil ganhou vários prêmios por suas práticas, produtos e embalagens sustentáveis. Desde o lançamento de sua primeira linha de coloração capilar com ingredientes orgânicos até sua mais recente coleção de protetores labiais veganos, fabricados a partir de cera de candelila, a Surya Brasil vem garantindo seu lugar entre as empresas de cosméticos mais éticas do país. Seu programa de responsabilidade social, o Surya Solidária, desenvolve e apoia projetos de preservação ambiental, direitos dos animais e assistência social.

Os principais desafios e oportunidades envolvidos na adoção de estratégias verdes para crescer no mercado brasileiro foram abordados na terceira edição latino-americana do Sustainable Cosmetics Summit, realizado em São Paulo. Organizado pelo Organic Monitor, o evento reuniu as principais empresas e organizações do setor para compartilhar suas experiências e discutir os últimos avanços em ingredientes verdes, marketing e distribuição de produtos. A conferência avaliou a importância da adoção de métricas de sustentabilidade para indústria de cosméticos, ofereceu insights sobre como os varejistas estão selecionando e comercializando seus produtos verdes e explorou alternativas utilizadas pelos fabricantes de cosméticos para reduzir sua pegada ambiental através da utilização de matérias-primas sustentáveis.

A sustentabilidade vai muito além de ingredientes naturais e orgânicos em formulações cosméticas. Ela engloba a transparência nas cadeias de fornecimento, produção e distribuição, além dos aspectos sociais“, afirma Tina Gill, gerente de marketing do Organic Monitor. “As embalagens também são um componente importante, com as empresas focando no eco-design, no uso de materiais sustentáveis e no controle do fluxo de resíduos”.

Segundo Gill, a indústria de matérias-primas verdes está em constante evolução, com o lançamento de ingredientes com desempenho semelhante aos sintéticos. “Estamos observando o surgimento de novos conservantes, emulsionantes, emolientes e surfactantes nos últimos anos, o que facilita o desenvolvimento de formulações verdes que possam substituir os materiais sintéticos”. Ela acredita que o principal desafio para a comercialização de cosméticos naturais e orgânicos é diferenciar esses produtos de propagandas enganosas. “São tantas marcas promovendo seus cosméticos com base no uso de ingredientes naturais que os consumidores têm dificuldade em diferenciar os produtos verdadeiramente naturais dos convencionais, que possuem apenas uma porcentagem de ingredientes naturais em suas formulações”, afirma Gill.

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que antes era verde, ou natural, hoje é tratado como sustentável. Esse termo expressa de forma mais ampla todas as iniciativas comprometidas com o futuro do planeta, das pessoas, e dos negócios. Enquanto o mundo todo hoje, em diferentes áreas de produtos e serviços, discute essa questão com cada vez mais seriedade e menos publicidade, a indústria de cosméticos se insere como protagonista, constantemente apresentando soluções nessa direção, tanto como resposta ao consumidor mais exigente, como estratégia de sobrevivência de seu próprio negócio. E na perfumaria, como está esse movimento?

Do verde ao sustentável

Durante muito tempo, o conceito de uma “perfumaria mais natural” foi estabelecido e como a perfumaria feita com fragrâncias compostas exclusivamente ou principalmente por ingredientes de origem natural. Essa contraposição às fragrâncias sintéticas, reforçada por adeptos de uma cosmética mais natural, acelerou nos últimos anos uma certa polarização na percepção de valor dos ingredientes da indústria, posicionando ingredientes sintéticos como vilões e ingredientes naturais como um verdadeiro alento e salvação no mar de substâncias às quais estamos expostos diariamente.

Se por um lado a escassez tornou os naturais heróis, por outro a crucificou. Em um mercado em crescimento puxado pelos emergentes, fatalmente veio a consciência da finitude dos recursos naturais. Os fabricantes então se organizaram na última década, na busca de garantir a sustentabilidade de suas fontes naturais, implementando estratégias de suprimentos fundamentadas na capacitação e desenvolvimento de comunidades especializadas, habilitadas a fornecer ingredientes em escalas mais reais e dentro dos padrões ideais, sem esgotar suas fontes.

Mesmo assim, a polarização naturais x sintéticos sempre colocou este último como vilão. Embora, do ponto de vista da criação de fragrâncias, a arte esteja em saber usar o que cada um tem de melhor a oferecer dentro de uma composição.

Mais alternativas para a perfumaria

Queremos falar sobre o verdadeiro desafio da indústria de perfumaria que, não podendo ser submetida à uma ruptura tão grande que inviabilize o próprio mercado, tem buscado alternativas economicamente, socialmente e ambientalmente mais sustentáveis do que simplesmente perfumes “mais naturais”. Além da já bem estruturada estratégia de obtenção sustentável de naturais a partir de comunidades especializadas situadas na origem dos ingredientes, como citado anteriormente, temos observado duas estratégias germinando e começando a se estabelecer em escala global.

Adoção crescente de ingredientes de origem renovável e redução na utilização de ingredientes de origem não renovável

Mas o que seria renovável, em primeiro lugar? Em nosso cotidiano, entramos em contato ou consumimos vários recursos de origem natural: madeira, água, gás. Alguns desses recursos são renováveis e outros não. De forma mais simples, isso tem a ver com a velocidade com que os recursos se renovam. Os renováveis são aqueles que se recompõem na natureza em um período relativamente curto de tempo, ou do ponto de vista econômico, se recompõem antes de haver necessidade de serem utilizados novamente. O álcool usado em perfumes é portanto de origem renovável.

Já os recursos não renováveis são aqueles consumidos com mais rapidez do que são gerados, como petróleo e seus derivados – principalmente alguns tipos de solventes e especialidades químicas, usados na perfumaria.

Essa estratégia passa então por evitar e até proibir o uso desse tipo de ingredientes na composição da fragrância. A Natural Products Association traz uma abordagem interessante, pois considera como “natural”, produtos com ingredientes provenientes ou produzidos usando fontes renováveis encontradas na natureza, isento de derivados de petróleo. Nessa linha, um absoluto de rosa, por exemplo, que é extraído usando solventes como hexano, éter ou outro derivados de petróleo, já não seria uma opção. No entanto, diminuir o uso destes componentes, coloca-se como uma alternativa de perfumaria mais ambientalmente responsável.

Adoção de tecnologias mais limpas, como a biotecnologia ou também chamada biotecnologia branca

Nessa rota, especialidades são obtidas ou usando organismos vivos como bactérias, leveduras ou fungos “programados” através de bioengenharia para produzir a molécula de interesse olfativo, ou usando enzimas específicas produzidas por esses organismos, com a finalidade de se obter alguma vantagem em relação ao original produzido sinteticamente ou extraído diretamente da natureza. Essas vantagens podem ser: aumentar sua degradação na natureza, consumir menos energia na sua produção, gerar menos resíduos durante o processo produtivo, apresentar melhor performance ou simplesmente uma alternativa a um recurso escasso, caro e finito – como é o caso de muitos naturais valiosos utilizados pelos perfumistas.

Em muitos desses casos, encontrar o seu “genérico biotecnológico” se transforma em uma estratégia de suprimento mais sustentável. Por isso, os grandes fabricantes tem desenvolvido seus próprios métodos biotecnológicos ou se associado a empresas especializadas em desenvolvê-los – e assim obter com exclusividade um ingrediente valioso, sem esgotar sua fonte, e sem contaminar o planeta ao produzi-lo.

A opinião dos especialistas

Lucia Lisboa, Vice Presidente de Perfumaria Fina para América Latina, Givaudan
A Givaudan se dedica à sustentabilidade de seus ingredientes naturais há mais de 10 anos. Temos um programa chamado GIN (Givaudan Innovative Naturals) que mapeia os ingredientes de maior risco de extinção e os fatores que levam a isso, seja por manejo, por negociação, por interesse, ou mesmo por necessidade. Iniciamos nosso trabalho e em 2006 lançamos nosso primeiro ingrediente sustentável, o Sândalo Australiano, trabalhado com comunidades aborígenes da Austrália. Depois vieram o Benjoim do Laos, a Tonka da Venezuela, e não paramos mais. Sempre em parcerias locais com ONGs, representantes do governo e da comunidade envolvida. Hoje vemos um cuidado maior para a origem, o cultivo e a rastreabilidade dos ingredientes naturais. E falamos cada vez mais de um futuro verde para a perfumaria, principalmente no que se refere aos ingredientes naturais, sustentáveis e obtidos através de biotecnologias.

André Tabanez, Gerente de Ingredientes Naturais, Firmenich e Doutor em biodiversidade vegetal e meio ambiente pelo Instituto de Botânica de São Paulo
É importante desmistificar o binômio natural x sintético. Não existe uma correlação direta entre ingrediente natural e sustentabilidade assim como não existe uma correlação direta entre ingrediente sintético e não-sustentabilidade. Em relação aos sintéticos, existe hoje na Firmenich uma busca em grande escala pelo menor impacto ambiental possível para que um novo ingrediente seja incluído em nossa paleta e disponibilizado para os perfumistas trabalharem em suas criações. Só incluímos agora ingredientes biodegradáveis. É o caso do Josenol©, nosso ingrediente floral lançado recentemente.

Maurice Roucel, Mestre Perfumista, Symrise
Dar foco a um processo mais sustentável, como a adoção de ingredientes de fonte renovável e a redução de ingredientes não renováveis, derivados do petróleo, é uma estratégia totalmente viável rumo a uma perfumaria mais verde. Hoje temos clientes de diferentes partes do mundo que já nos demandam criações com 75 a 100% de ingredientes de fonte renovável em suas composições. São escolhas, pois sem dúvida isso limita a sua criatividade, já que você passa a acessar uma paleta mais restrita, com menos opções olfativas, e você acaba entregando uma criação que, em algum ponto, lembra as mais tradicionais. Explico melhor: a modernidade vem da novidade; sem ela, o comum envelhece. Vamos comparar com a música ou a gastronomia: é a introdução de novos ritmos ou de novos aromas que transformam um prato ou uma música já conhecidos em uma peça de arte contemporânea. É o mesmo com a criação de fragrâncias.

Sim, o futuro é verde

São iniciativas de longo prazo, que chegam ao mercado após percorrerem um longo caminho. Mas mostram que, enquanto em uma ponta os consumidores mais conscientes e informados estão em busca de novas alternativas sustentáveis, na outra, as Casas de Fragrâncias que são responsáveis pela inovação em ingredientes para a perfumaria estão investindo no futuro de um caminho cada vez mais verde.