salao-ecod

A evolução da clientela tem feito muitos empreendedores repensar e mudar o modo de oferecer os serviços. Um dos mais importantes princípios buscados atualmente pelo consumidor consciente é a sustentabilidade: além da análise custo-benefício de um produto ou serviço, é cada vez mais relevante a preocupação com o processo produtivo, a responsabilidade social e ambiental da empresa, entre muitos outros fatores.

Seguindo a tendência da sustentabilidade aplicada aos negócios, uma nova modalidade de salões de beleza começa a tomar forma e ganhar espaço no mercado: são os salões sustentáveis ou “salões verdes”. É o que destaca o relatório de Sustentabilidade do Sistema de Inteligência Setorial (SIS) do Sebrae, que aborda esse novo conceito, assim como outros pontos que envolvem o cuidado estético e a sustentabilidade, orientando o micro e pequeno empreendedor para as oportunidades no setor.

Sete mil salões de beleza são abertos por mês no Brasil – a maioria está enquadrada em microempreendedores individuais (MEI). Para buscar uma diferenciação em meio à grande concorrência, confira algumas práticas adotadas pelos “salões verdes” e verifique a viabilidade de aplicá-las em seu empreendimento:

· Trabalhe apenas com produtos ecológicos, que permitam ser reciclados ao final e opte por marcas que ofereçam a opção de refil, para não descartar a embalagem quando acabar;
· Utilize produtos que não são testados em animais;
· Procure aproveitar a iluminação natural e lâmpadas de baixo consumo energético; outra possibilidade é a utilização de painéis solares para captação de energia.
· Utilize tintas de cabelo orgânicas, sem presença de amônia e outros aditivos químicos em sua composição;
· Incentive os clientes a devolver/trazer frascos usados de cosméticos para o salão, e implemente a coleta seletiva desses rejeitos, agregando valor ambiental e renda a associação de catadores locais;

Um exemplo de sustentabilidade vem de Natal (RN): Fabiana Gondim é proprietária do salão de beleza Chic Coiffeur e criou um método inovador, chamado HairSIZE, que mede a quantidade de produto a ser utilizado nos cabelos de clientes, analisando o comprimentos dos fios. O método evita excessos de produto no cabelo e diminui o desperdício. Em um mês já é possível reduzir de 60% a 70% o consumo de produtos e água – uma medida econômica e ecologicamente correta.

Se você se interessou por esta tendência e quer implementá-la em seu negócio, confira as dicas do Sebrae:

· Para alcançar o status de sustentável é necessário conscientizar todos os colaboradores para a adoção das práticas propostas, portanto, invista em treinamentos para conscientização
· Acompanhe informações e tendências de sustentabilidade no Centro Sebrae de Sustentabilidade (CSS), referência nacional no Sistema Sebrae. O CSS possui uma cartilha com dicas sustentáveis para salões de beleza, confira e pratique!
· O Sebrae pode ajudar a implementar essas iniciativas. Agende seu atendimento pelo telefone 0800 570 0800 ou procure a unidade mais próxima clicando aqui.

images

que antes era verde, ou natural, hoje é tratado como sustentável. Esse termo expressa de forma mais ampla todas as iniciativas comprometidas com o futuro do planeta, das pessoas, e dos negócios. Enquanto o mundo todo hoje, em diferentes áreas de produtos e serviços, discute essa questão com cada vez mais seriedade e menos publicidade, a indústria de cosméticos se insere como protagonista, constantemente apresentando soluções nessa direção, tanto como resposta ao consumidor mais exigente, como estratégia de sobrevivência de seu próprio negócio. E na perfumaria, como está esse movimento?

Do verde ao sustentável

Durante muito tempo, o conceito de uma “perfumaria mais natural” foi estabelecido e como a perfumaria feita com fragrâncias compostas exclusivamente ou principalmente por ingredientes de origem natural. Essa contraposição às fragrâncias sintéticas, reforçada por adeptos de uma cosmética mais natural, acelerou nos últimos anos uma certa polarização na percepção de valor dos ingredientes da indústria, posicionando ingredientes sintéticos como vilões e ingredientes naturais como um verdadeiro alento e salvação no mar de substâncias às quais estamos expostos diariamente.

Se por um lado a escassez tornou os naturais heróis, por outro a crucificou. Em um mercado em crescimento puxado pelos emergentes, fatalmente veio a consciência da finitude dos recursos naturais. Os fabricantes então se organizaram na última década, na busca de garantir a sustentabilidade de suas fontes naturais, implementando estratégias de suprimentos fundamentadas na capacitação e desenvolvimento de comunidades especializadas, habilitadas a fornecer ingredientes em escalas mais reais e dentro dos padrões ideais, sem esgotar suas fontes.

Mesmo assim, a polarização naturais x sintéticos sempre colocou este último como vilão. Embora, do ponto de vista da criação de fragrâncias, a arte esteja em saber usar o que cada um tem de melhor a oferecer dentro de uma composição.

Mais alternativas para a perfumaria

Queremos falar sobre o verdadeiro desafio da indústria de perfumaria que, não podendo ser submetida à uma ruptura tão grande que inviabilize o próprio mercado, tem buscado alternativas economicamente, socialmente e ambientalmente mais sustentáveis do que simplesmente perfumes “mais naturais”. Além da já bem estruturada estratégia de obtenção sustentável de naturais a partir de comunidades especializadas situadas na origem dos ingredientes, como citado anteriormente, temos observado duas estratégias germinando e começando a se estabelecer em escala global.

Adoção crescente de ingredientes de origem renovável e redução na utilização de ingredientes de origem não renovável

Mas o que seria renovável, em primeiro lugar? Em nosso cotidiano, entramos em contato ou consumimos vários recursos de origem natural: madeira, água, gás. Alguns desses recursos são renováveis e outros não. De forma mais simples, isso tem a ver com a velocidade com que os recursos se renovam. Os renováveis são aqueles que se recompõem na natureza em um período relativamente curto de tempo, ou do ponto de vista econômico, se recompõem antes de haver necessidade de serem utilizados novamente. O álcool usado em perfumes é portanto de origem renovável.

Já os recursos não renováveis são aqueles consumidos com mais rapidez do que são gerados, como petróleo e seus derivados – principalmente alguns tipos de solventes e especialidades químicas, usados na perfumaria.

Essa estratégia passa então por evitar e até proibir o uso desse tipo de ingredientes na composição da fragrância. A Natural Products Association traz uma abordagem interessante, pois considera como “natural”, produtos com ingredientes provenientes ou produzidos usando fontes renováveis encontradas na natureza, isento de derivados de petróleo. Nessa linha, um absoluto de rosa, por exemplo, que é extraído usando solventes como hexano, éter ou outro derivados de petróleo, já não seria uma opção. No entanto, diminuir o uso destes componentes, coloca-se como uma alternativa de perfumaria mais ambientalmente responsável.

Adoção de tecnologias mais limpas, como a biotecnologia ou também chamada biotecnologia branca

Nessa rota, especialidades são obtidas ou usando organismos vivos como bactérias, leveduras ou fungos “programados” através de bioengenharia para produzir a molécula de interesse olfativo, ou usando enzimas específicas produzidas por esses organismos, com a finalidade de se obter alguma vantagem em relação ao original produzido sinteticamente ou extraído diretamente da natureza. Essas vantagens podem ser: aumentar sua degradação na natureza, consumir menos energia na sua produção, gerar menos resíduos durante o processo produtivo, apresentar melhor performance ou simplesmente uma alternativa a um recurso escasso, caro e finito – como é o caso de muitos naturais valiosos utilizados pelos perfumistas.

Em muitos desses casos, encontrar o seu “genérico biotecnológico” se transforma em uma estratégia de suprimento mais sustentável. Por isso, os grandes fabricantes tem desenvolvido seus próprios métodos biotecnológicos ou se associado a empresas especializadas em desenvolvê-los – e assim obter com exclusividade um ingrediente valioso, sem esgotar sua fonte, e sem contaminar o planeta ao produzi-lo.

A opinião dos especialistas

Lucia Lisboa, Vice Presidente de Perfumaria Fina para América Latina, Givaudan
A Givaudan se dedica à sustentabilidade de seus ingredientes naturais há mais de 10 anos. Temos um programa chamado GIN (Givaudan Innovative Naturals) que mapeia os ingredientes de maior risco de extinção e os fatores que levam a isso, seja por manejo, por negociação, por interesse, ou mesmo por necessidade. Iniciamos nosso trabalho e em 2006 lançamos nosso primeiro ingrediente sustentável, o Sândalo Australiano, trabalhado com comunidades aborígenes da Austrália. Depois vieram o Benjoim do Laos, a Tonka da Venezuela, e não paramos mais. Sempre em parcerias locais com ONGs, representantes do governo e da comunidade envolvida. Hoje vemos um cuidado maior para a origem, o cultivo e a rastreabilidade dos ingredientes naturais. E falamos cada vez mais de um futuro verde para a perfumaria, principalmente no que se refere aos ingredientes naturais, sustentáveis e obtidos através de biotecnologias.

André Tabanez, Gerente de Ingredientes Naturais, Firmenich e Doutor em biodiversidade vegetal e meio ambiente pelo Instituto de Botânica de São Paulo
É importante desmistificar o binômio natural x sintético. Não existe uma correlação direta entre ingrediente natural e sustentabilidade assim como não existe uma correlação direta entre ingrediente sintético e não-sustentabilidade. Em relação aos sintéticos, existe hoje na Firmenich uma busca em grande escala pelo menor impacto ambiental possível para que um novo ingrediente seja incluído em nossa paleta e disponibilizado para os perfumistas trabalharem em suas criações. Só incluímos agora ingredientes biodegradáveis. É o caso do Josenol©, nosso ingrediente floral lançado recentemente.

Maurice Roucel, Mestre Perfumista, Symrise
Dar foco a um processo mais sustentável, como a adoção de ingredientes de fonte renovável e a redução de ingredientes não renováveis, derivados do petróleo, é uma estratégia totalmente viável rumo a uma perfumaria mais verde. Hoje temos clientes de diferentes partes do mundo que já nos demandam criações com 75 a 100% de ingredientes de fonte renovável em suas composições. São escolhas, pois sem dúvida isso limita a sua criatividade, já que você passa a acessar uma paleta mais restrita, com menos opções olfativas, e você acaba entregando uma criação que, em algum ponto, lembra as mais tradicionais. Explico melhor: a modernidade vem da novidade; sem ela, o comum envelhece. Vamos comparar com a música ou a gastronomia: é a introdução de novos ritmos ou de novos aromas que transformam um prato ou uma música já conhecidos em uma peça de arte contemporânea. É o mesmo com a criação de fragrâncias.

Sim, o futuro é verde

São iniciativas de longo prazo, que chegam ao mercado após percorrerem um longo caminho. Mas mostram que, enquanto em uma ponta os consumidores mais conscientes e informados estão em busca de novas alternativas sustentáveis, na outra, as Casas de Fragrâncias que são responsáveis pela inovação em ingredientes para a perfumaria estão investindo no futuro de um caminho cada vez mais verde.

cpfl

Em comunicado, a CPFL anunciou a criação de uma nova empresa, a Envo, para atuar na venda e instalação de pequenos sistemas de geração de energia solar para residências e comércios de pequeno porte, como placas fotovoltaicas em telhados.

“A gente tem um plano bem ambicioso para essa empresa”, disse o presidente da CPFL, Andre Dorf. O executivo destacou que há uma expectativa de crescimento acelerado da nova empresa, dado o interesse que consumidores têm demonstrado pelas soluções de geração distribuída.

No primeiro momento, os esforços de venda e o foco de atuação da Envo serão as cidades da região de Campinas, Sorocaba, Jundiaí e arredores. Com isso, o serviço estará disponível para os municípios do interior paulista, como Jundiaí, Sorocaba, Vinhedo, Hortolândia, Indaiatuba, Valinhos, Paulínia, Americana, Itatiba, Jaguariúna, Piracicaba, Sumaré e Pedreira, além de Campinas e outras regiões. A companhia tem planos para se expandir em outras localidades do Estado.

A Envo atuará desde a concepção técnica, avaliando itens como consumo de energia, condições estruturais do imóvel, níveis de irradiação solar e de sombreamento no local, passando pela revenda e instalação da solução completa, até a homologação do consumidor junto à distribuidora, intermediando, ainda, o processo de instalação do medidor digital.

paineis-1

“As mulheres querem as coisas em lugares diferentes dos homens”, afirmou Sissy Larrea, para enfatizar que gênero também é uma questão importante em matéria de energia na América Latina. As mulheres são as mais afetadas por carências energéticas no trabalho doméstico, majoritariamente sob sua responsabilidade, e atividades como comércio e produção alimentar, mas são marginalizadas nas decisões do setor.

Por se tratar – como se pensa – de “uma área técnica, não social, os homens assumem a direção e cabem às mulheres serviços de administração”, destacou Larrea, assessora para Igualdade de Gênero da Organização Latino-Americana de Energia (Olade), com sede na capital do Equador. Com a sua contratação dessa antropóloga com duas décadas de experiência em temas de gênero, a Olade intensificou, desde 2012, a capacitação e a sensibilização de governos e instituições para adoção de políticas e ferramentas para a igualdade entre homens e mulheres nos órgãos de decisão.

Unidades ou comissões de gênero foram criadas ou fortalecidas em ministérios e empresas de muitos países como Haiti, México e Uruguai, com mecanismos para superar iniquidades. A capacitação, por meio de cursos variados e assistência técnica, é o principal instrumento da Olade para cumprir a missão para a qual foi criada em 1973, de contribuir para a integração e segurança energética regional, para o desenvolvimento sustentável e a cooperação entre seus 27 países membros da América Latina e do Caribe.

“A matéria-prima da Olade é o conhecimento”, definiu para a IPS o brasileiro Fernando Ferreira, secretário executivo da organização entre 2014 e 2016. Somando os chamados diplomados, cursos presenciais intensivos de seis semanas, à capacitação virtual de dez horas, um total de 7.200 especialistas ampliaram seus conhecimentos em temas como planejamento, energias renováveis, inclusão social e eficiência energética. A quantidade cresceu muito desde 2006, quando houve 263 participantes.

O salto ocorreu com as novas ferramentas adotadas nos cursos virtuais a partir de 2012, explicou Paola Carrera, coordenadora de Gestão da Informação e Capacitação. Em 2016, o curso sobre Perdas Elétricas, por exemplo, teve mais de 800 participantes. Além da sede em Quito, sub-sedes em Honduras e Jamaica contribuem para a expansão, atendendo interessados do Caribe e da América Central.

Com a vista de Quito ao fundo, Sissy Larrea, assessora para Igualdade de Gênero da Olade, autora do manual Estratégia de Igualdade de Gênero da Olade, em 2013, dissemina a questão de gênero nas decisões e atividades energéticas da região. Foto: Mario Osava/IPS

 

“Os cursos, interdisciplinares e plurinacionais, são enriquecedores. Vi que a situação energética da América Central é muito diferente da existente na América do Sul”, contou Gloriana Alvarado, do estatal Instituto Costa-Riquenho de Eletricidade, recordando sua participação no diplomado de 2013, em Quito. Ela se interessou pela gestão energética sul-americana, com os conflitos devidos ao uso de hidrocarbonos na geração elétrica, em contraste com a Costa Rica, onde “são gerados mais de 95% com fontes renováveis”, principalmente hídrica, eólica e geotérmica, destacou.

“A média é de 20 cursos por ano, mas promovemos outras formas de compartilhar conhecimento, como o Programa de Cooperação Sul-Sul”, explicou Ferreira, economista e doutor em engenharia que trabalhou em uma estatal e em vários órgãos de regulação e planejamento energético do Brasil. Um exemplo “é o intercâmbio entre países com grande potencial em geotermia mas sem experiência”, como os andinos, e os que já desenvolveram essa fonte, como México e centro-americanos.

Sistemas de informação energética e publicações especializadas da organização também ajudam a melhorar a gestão do setor nos diferentes países. A Olade nasceu em 2 de novembro de 1973 como organização intergovernamental, em resposta à chamada primeira crise internacional do petróleo, pela explosão de seus preços, que desnudou a necessidade de se impulsionar políticas energéticas e a cooperação na América Latina, onde a maioria dos países é importadora de hidrocarbonos.

Fernando Ferreira, economista brasileiro que foi secretário executivo da Olade no último triênio, pouco antes de deixar o cargo. “A matéria-prima da Olade é o conhecimento”, afirma. Foto: Mario Osava/IPS

 

A integração energética regional, um objetivo original, se revelou complexa e não avançou no ritmo do desejo declarado pelos ministros de Energia que se reúnem anualmente na organização. “Para a Olade, a integração não acaba, está sempre em construção”, pontuou Ferreira, citando, como “bom exemplo regional”, o Sistema de Interligação Elétrica dos Países da América Central, que já conta com linhas de transmissão nos seis países centro-americanos desde 2014.

Na América do Sul, há acordos bilaterais que resultaram em hidrelétricas binacionais, como Itaipu e Yaciretá, na fronteira do Paraguai com o Brasil e a Argentina, respectivamente. Mas a “Olade perdeu espaço para outras instituições políticas”, reconheceu Ferreira.

Nas últimas décadas surgiram vários organismos de integração e concertação regional ou sub-regional, como o Mercado Comum do Sul (Mercosul), a União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), que concentram as decisões políticas, limitando a Olade a funções técnicas. E é como “assessoria técnica” que desenhou para a Celac, em 2015, um “mapa do caminho” de integração e sustentabilidade energética regional.

Também fez para a Unasul um estudo de prioridade nos projetos energéticos da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana, aprovada em uma cúpula presidencial da sub-região em 2000, com 531 projetos. “Necessitamos de um segundo Convênio de Lima”, opinou Ferreira, se referindo ao acordo que criou a Olade em 1973, e que precisa de atualização.

No contexto atual, o desafio da integração tem que contemplar a mudança climática e a sustentabilidade ambiental como um eixo adicional, observou o ex-secretário da Olade. Por isso ganham importância as novas fontes renováveis de energia. A Olade decidiu estimular a energia solar. Em outubro, instalou uma pequena planta de três quilowatts em sua sede, para ensinar estudantes e interessados em sua operação, medindo a geração, seu valor e o volume evitado de gases-estufa.

A unidade de demonstração também é um laboratório da eficácia solar nas condições de Quito, a poucos quilômetros da linha equatorial. “A Olade é um local privilegiado, com o sol forte e quase perpendicular”, mas a altitude superior a 2.800 metros impede o calor excessivo que reduziria a produtividade fotovoltaica, detalhou Ferreira. “Os países pequenos são mais receptivos” a energias renováveis e eficiência energética, comprovou Jorge Asturias, diretor de Estudos e Projetos da Olade. “Os grandes, com capacidade de financiar seus próprios estudos, cooperam mais com agências internacionais”, não regionais, lamentou.

O futuro da Olade está ligado a novos mercados energéticos, acrescentou Ferreira. A partir de 2023, o Paraguai terá total liberdade para usar a eletricidade produzida por Itaipu à qual tem direito, metade dos 14 mil megawatts gerados pela central, atualmente utilizadas quase totalmente pelo Brasil. Assim, haverá novos negócios no Cone Sul.

Uma dificuldade que a Olade enfrenta são os atrasos na contribuição dos países membros, segundo Helena Cantizano, chefe da Assessoria de Relações Internacionais do Ministério de Minas e Energia do Brasil, que desde 2005 participa das ações da organização.

“O Brasil esteve insolvente por um longo período, sendo um dos países que mais contribuem, junto com Argentina, México e Venezuela”, recordou Cantizano, destacando que Brasília aporta pouco mais de US$ 240 mil ao ano, bem menos do que destina a outras organizações multilaterais. Mesmo assim, a Olade “aperfeiçoou seu processo de seleção de pessoal, na contratação de bens e serviços, e elevou a qualidade de seus produtos”, ressaltou. Envolverde/IPS

empresas1

Londres (16 de janeiro de 2017) — Mais de 35 CEOs e líderes da sociedade civil da Business & Sustainable Development Commission (Comissão de Desenvolvimento Sustentável e Empresarial) revelaram hoje que os modelos de negócios sustentáveis poderiam abrir oportunidades econômicas no valor de pelo menos US$ 12 trilhões e gerar até 380 milhões de empregos por ano até 2030. Colocar as Metas de Desenvolvimento Sustentável, ou Metas Globais, no centro da estratégia econômica mundial, poderia desencadear uma mudança radical no crescimento e na produtividade, com um boom de investimento em infraestrutura sustentável como um fator crítico. No entanto, isso não acontecerá sem uma mudança significativa na comunidade empresarial e de investimento. É necessária uma verdadeira liderança para que o setor privado se torne um parceiro confiável no trabalho com governos e com a sociedade civil para consertar a economia.

Em seu principal relatório, Better Business, Better World, a comissão reconhece que, embora nas últimas décadas centenas de milhões de pessoas tenham sido retiradas da pobreza, houve também um crescimento desigual, mais insegurança no campo do emprego e um endividamento cada vez maior. Esses fatores alimentaram uma reação antiglobalização em muitos países, com interesses empresariais e financeiros considerados centrais para o problema, minando o crescimento econômico de longo prazo que o mundo precisa. A Comissão passou o último ano analisando uma questão central: “O que será necessário para que as empresas sejam fundamentais para criar uma economia de mercado sustentável, que possa ajudar a atingir os Objetivos Globais?”. O Better Business, Better World, programado para ser lançado junto o Fórum Econômico Mundial, em Davos, e a posse presidencial nos Estados Unidos, mostra como.

“Este relatório é um apelo à ação para líderes empresariais. Nós estamos no limite e não mudar resultará em mais oposição política e em uma economia que simplesmente não funciona para um número suficiente de pessoas. Temos que mudar para um modelo de negócio que funcione para um novo tipo de crescimento inclusivo”, afirma Mark Malloch-Brown, presidente da Business & Sustainable Development Commission. “O Better Business, Better World mostra que existe um incentivo convincente para que o mundo não seja apenas bom para o meio ambiente e para a sociedade, mas que ele faça sentido em termos de negócios também”, complementa.

No centro da discussão da Comissão estão os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ou Objetivos Globais) – 17 objetivos para eliminar a pobreza, melhorar educação e saúde, criar melhores empregos e enfrentar os principais desafios ambientais até 2030. A Comissão acredita que os Objetivos Globais oferecem ao setor privado uma nova estratégia de crescimento que abre oportunidades de mercado valiosas ao criar um mundo que seja sustentável e inclusivo. E as possíveis recompensas para fazer isso são significativas.

O relatório revela que 60 grandes oportunidades em mercados sustentáveis e inclusivos em apenas quatro áreas econômicas importantes poderiam gerar pelo menos US$ 12 trilhões, valor acima de 10% do PIB atual. A discriminação das quatro áreas e seus valores potenciais são: energia, com US$ 4,3 trilhões; cidades: com US$ 3,7 trilhões; alimentos e agricultura, com US$ 2,3 trilhões; e saúde e bem-estar, com US$ 1,8 trilhão.

Essas grandes oportunidades dos Objetivos Globais identificadas no relatório têm o potencial de crescer 2 a 3 vezes mais rapidamente do que o PIB médio nos próximos 10 a 15 anos. Além dos US$ 12 trilhões estimados diretamente, a análise conservadora mostra potencial para mais US$ 8 trilhões de criação de valor em toda a economia se as empresas incorporarem os Objetivos Globais a suas estratégias. O relatório também mostra que, se o custo das externalidades (impactos negativos das atividades de negócios, como emissões de carbono ou poluição) for levado em conta, o valor global das oportunidades aumenta em quase 40%.

“Em um momento em que nosso modelo econômico está desafiando os limites de nossas fronteiras planetárias e condenando muitos a um futuro sem esperança, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável nos oferecem uma saída”, diz Paul Polman, CEO da Unilever, e membro da comissão. “Muitos estão agora percebendo as enormes oportunidades que existem para empresas esclarecidas e dispostas a enfrentar estes desafios urgentes. Mas cada dia que passa é mais uma oportunidade perdida para a ação. Devemos reagir de forma rápida, decisiva e coletiva para garantir um mundo mais justo e próspero para todos”, afirma Polman.

Embora as oportunidades sejam convincentes, a Business & Sustainable Development Commission deixa claro que duas condições críticas devem ser atendidas para criar esses novos mercados. Primeiro, será necessário um financiamento inovador de fontes públicas e privadas para liberar os US$ 2,4 trilhões necessários anualmente para alcançar os Objetivos Globais.

“Como gestores de capital de longo prazo, a indústria de investimentos e seus clientes podem apoiar a realização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, criando métricas de sustentabilidade simples e padronizadas, integrantes do processo de investimento”, explica Hendrik du Toit, CEO da Investec Asset Management e membro da Comissão. “Também precisamos de novas parcerias otimizadas com governos e comunidades que possam reduzir os riscos para todos e trazer mais investimento privado a um custo mais baixo para o desenvolvimento de infraestrutura sustentável”, complementa o CEO.

Ao mesmo tempo, a Comissão acredita que um “novo contrato social” entre empresas, governo e sociedade é essencial para definir o papel das empresas em uma nova economia mais justa. O Edelman Trust Barometer 2017, recentemente lançado, reforça esta ideia. Ele mostra que, embora a credibilidade do CEO esteja em forte queda, 75% dos entrevistados da população em geral concordam que “uma empresa pode adotar ações específicas que aumentam os lucros e melhoram as condições econômicas e sociais na comunidade onde ela opera”. Elas podem fazer isso de formas que se alinham com as recomendações e ações descritas no Better Business, Better World: reconquistar a confiança criando empregos dignos, recompensando os trabalhadores de forma justa, investindo na comunidade local e pagando uma parcela justa de impostos.

“A promessa dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e do Acordo Climático de Paris é um mundo livre de carbono e com pobreza zero. Para alcançar esses Objetivos Globais, precisamos recuperar confiança. Um novo contrato social para as empresas onde as pessoas, seu meio ambiente e desenvolvimento econômico sejam reequilibrados pode garantir que todos os filhos e filhas sejam respeitados com liberdade, salário mínimo adequado, acordos coletivos e trabalho seguro garantido. Somente um novo modelo de negócios baseado em antigos princípios de direitos humanos e justiça social irá apoiar um futuro sustentável”, explica Sharan Burrow, Secretária-Geral da International Trade Union Confederation e também integrante da Comissão.

Ao longo de 2017, a Comissão focará seus esforços em trabalhar com as empresas para reforçar o alinhamento delas com os Objetivos Globais, incluindo: orientar a próxima geração de líderes de desenvolvimento sustentável; criar roteiros setoriais e tabelas que classifiquem o desempenho corporativo em relação aos Objetivos Globais; e apoiar medidas para a liberação de financiamentos que viabilizem investimentos em infraestruturas sustentáveis. “Precisamos mostrar que essas ideias funcionam não apenas em um relatório, mas na linha de frente dos negócios”, ressalta a Dra. Amy Jadesimi, CEO da LADOL, uma empresa nigeriana de desenvolvimento de infraestrutura e logística, e membra da Comissão.

“Os Objetivos Globais fornecem um modelo de crescimento sustentável e lucrativo para as empresas e têm o potencial de desencadear uma nova ‘corrida competitiva para o topo’. Quanto mais rápido os CEOs e conselhos fizerem dos Objetivos Globais seus objetivos de negócios, melhor será para o mundo e suas empresas”, finaliza Jeremy Oppenheim, diretor de Programa da Comissão. (#Envolverde)

Sobre a Business & Sustainable Development Commission

A Business & Sustainable Development Commission (Comissão de Desenvolvimento Sustentável e Empresarial) foi lançada no Fórum Econômico Mundial, em Davos, em janeiro de 2016. A iniciativa reúne líderes de empresas, finanças, sociedade civil, organizações trabalhistas e internacionais com o duplo objetivo de identificar o retorno econômico que poderia estar disponível para as empresas se os Objetivos Globais forem atingidos, e descrever como elas podem contribuir para alcançá-los. Para acessar o relatório, visite report.businesscommission.org. Os eventos de lançamento do Better Business, Better World serão realizados durante a semana de 16 de janeiro, primeiro no Philanthropreneurship Forum em Viena, depois no Fórum Econômico Mundial, em Davos. Eventos regionais também estão programados. Para saber mais, visite www.businesscommission.org.

Para ler o relatório completo visite report.businesscommission.org. Twitter: twitter.com/BizCommission

* Com informações da Business & Sustainable Development Commission.

10-28-2016transportation

Novo relatório da ONU divulgado na última sexta-feira (28) observou que um maior investimento em transportes verdes, eficientes e sustentáveis pode ajudar a alcançar metas globais de sustentabilidade e proporcionar uma economia de 70 trilhões de dólares até 2050.

Segundo o estudo “Mobilização de Transporte Sustentável para o Desenvolvimento”, investimentos nesse setor gerariam, entre outros benefícios, economia de combustível; menores gastos operacionais; diminuição do congestionamento; e redução da poluição do ar.

O relatório observou também que a mudança para o transporte sustentável de mercadorias e de passageiros – que inclui terminais portuários integrados, aeroportos bem planejados e regulamentos em fronteiras eficientes – pode ainda produzir um aumento do Produto Interno Bruto (PIB) global de 2,6 trilhões de dólares.

Em mensagem sobre o lançamento do relatório, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse que o transporte sustentável é essencial para a realização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), bem como para combater as mudanças climáticas, reduzir a poluição do ar e melhorar a segurança rodoviária.

“O transporte sustentável suporta o crescimento inclusivo; a geração de emprego; a redução da pobreza; o acesso aos mercados; o empoderamento das mulheres; e o bem-estar das pessoas com deficiência e outros grupos vulneráveis”, frisou o dirigente máximo da ONU.

Entre as recomendações do relatório para o setor estão a implementação de quadros de avaliação e monitoramento, promoção de tecnologias de transporte sustentáveis e o aumento do financiamento internacional, entre outras.

O relatório solicita ainda um diálogo ‘robusto’ entre todas as partes interessadas, a fim de garantir que todos os membros da sociedade tenham acesso a postos de trabalho, mercados, educação e cuidados de saúde através do transporte sustentável.

“O transporte pode construir a prosperidade no sentido mais amplo, melhorando a qualidade de vida de todos e, ao mesmo tempo, protegendo o meio ambiente e combatendo a mudança climática, disse o CEO da Volvo e copresidente do Grupo Consultivo de Alto Nível sobre Transporte Sustentável, Martin Lundstedt.

“Precisamos de uma inovação ousada e uma verdadeira parceria entre governo, sociedade civil e setor privado”, acrescentou.

Atualmente, o setor do transporte é responsável por cerca de 23% das emissões de gases com efeito estufa relacionados à energia, e 3,5 milhões de mortes prematuras acontecem devido à poluição externa do ar, principalmente em países de baixa e média renda.

Além disso, cerca de 15% dos alimentos são perdidos durante o processamento, transporte e armazenamento devido à falta de instalações modernas, caminhões, acesso a refrigeradores e por conta de estradas em más condições.

Quase um bilhão de pessoas no mundo ainda não têm acesso adequado às redes rodoviárias, o que aumenta o isolamento e a marginalização e aprofunda as desigualdades sociais. Mais de 1,2 milhão de pessoas são mortas anualmente em acidentes em estradas, causando, além de perdas humanas e sofrimento, bilhões de dólares em custos associados, chegando a 3% do PIB em alguns países. (ONU Brasil/#Envolverde)

*Publicado originalmente no site da ONU Brasil

 

agricultura-1

Por Claudio Angelo, do OC –

Projeto ressuscita “fast-track” para obras e ameaça um dos principais instrumentos de combate ao desmatamento ao revogar lei que prevê corte de crédito a quem operar sem licença.

Um dos principais instrumentos que permitiram ao governo brasileiro reduzir as taxas de desmatamento encontra-se sob ameaça. E quem aponta a arma é o próprio governo: um projeto de lei em discussão na Casa Civil revoga a legislação que embasou as políticas de corte de crédito para desmatadores, de embargo de propriedades e de corresponsabilização dos bancos por danos ambientais, que vêm sendo aplicadas com sucesso na Amazônia desde 2008. Caso seja aprovado sem modificações, o projeto poderá dificultar ainda mais o controle da devastação, que em 2016 cresceu 29% na região amazônica.

O projeto em questão é a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, originalmente proposta pelo Ministério do Meio Ambiente para tentar fazer frente à série de iniciativas em curso no Congresso para enfraquecer o licenciamento. Em discussão desde maio, o texto sofreu uma metamorfose após chegar ao Palácio do Planalto e passar pelo crivo de sucessivos ministérios. Embora mantenha um dos principais pontos da proposta original – a definição da localização do empreendimento como principal critério de rigor do licenciamento –, a lei tornou-se, em alguns aspectos, semelhante a algumas das propostas que visava suplantar.

A versão à qual o OC teve acesso é datada de 1o de novembro. Distribuída aos conselheiros do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente), ela vem acompanhada de uma crítica do MMA (Ministério do Meio Ambiente) às modificações feitas no projeto, que, segundo a pasta, trazem “insegurança jurídica”, “grave retrocesso” ou podem gerar “questionamento da constitucionalidade”.

Entre as mais importantes está a questão do crédito. O novo texto revoga o artigo 12 da Política Nacional de Meio Ambiente (Lei 6.938/1981), que determina que órgãos de financiamento públicos não podem bancar projetos sem licença ambiental. Esse artigo foi usado pelo MMA em 2007 para embasar o decreto presidencial que criou a figura do embargo de propriedades com desmatamento ilegal. “Isso foi determinante para a resolução do Banco Central [de 2008] que aprovou o não acesso ao crédito rural aos proprietários com áreas embargadas”, lembra André Lima, secretário do Meio Ambiente do DF e um dos arquitetos do decreto em 2007.

A partir da resolução do BC e da divulgação da lista das fazendas embargadas pelo Ibama, o desmatamento passou a cair consistentemente até 2012. “Aumentou a percepção de risco na Amazônia”, diz João Paulo Capobianco, ex-secretário-executivo do MMA.

A revogação do artigo 12 é um problema em si, pois dificulta a fiscalização. Hoje, a falta de licença ambiental é a maneira mais simples de embargar uma área – já que o desmatamento ilegal, que também gera embargo, precisa frequentemente de verificação em campo. Mas, sozinha, não bastaria para tornar nula a figura do embargo. No entanto, ela vem acompanhada, no texto da nova lei de licenciamento, de um outro artigo, que retira dos bancos a corresponsabilidade pelos crimes ambientais.

Hoje funciona assim: segundo a Lei de Crimes Ambientais, de 1998, se um banco público ou privado empresta dinheiro a um desmatador, ele está sujeito às mesmas punições do desmatador. Em outubro deste ano, por exemplo, o Ibama e o Ministério Público Federal de Mato Grosso fizeram uma operação conjunta que terminou com uma multa de R$ 47,5 milhões ao banco Santander por financiar plantio de milho em áreas desmatadas ilegalmente no Estado. Se a mudança na Lei Geral do Licenciamento passar, desaparece a restrição e os bancos poderão financiar desmatamento – e qualquer outra atividade econômica sem licença ambiental – sem temer punição.

Isenções

O novo texto também traz de volta a figura do “fast-track” para licenciamento de obras de interesse do governo. Essa ideia foi proposta num projeto de lei de 2015 pelo senador investigado na Lava Jato Romero Jucá (PMDB-RR). Ele defende que projetos que o chefe do Executivo considere “de interesse nacional” sejam exonerados do rito completo do licenciamento em favor de um rito sumário.

Na proposta original do MMA para a Lei Geral do Licenciamento, o prazo da licença prévia para um empreendimento era de até 15 meses. Na versão na Casa Civil, esse prazo cai para oito meses, que poderão ser reduzidos a quatro no caso de obras “estratégicas”. “O ‘fast-track’ pretendido gerará insegurança jurídica, pois a redução pela metade dos prazos tornará inviável o cumprimento de fases como a audiência pública, o que gerará judicialização”, alerta o ministério.

Outro ponto polêmico é o das isenções de licenciamento. A bancada ruralista e a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) têm pressionado pela retirada da exigência de licença ambiental das propriedades rurais. A isenção consta do projeto de lei de licenciamento do deputado Mauro Pereira (PMDB-RS), apoiado pelos ruralistas, que pode ser votado a qualquer momento na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara.

Segundo Márcio Santilli, cofundador do Instituto Socioambiental, ganhar a dispensa de licenciamento é o real motivo pelo qual a poderosa Frente Parlamentar da Agropecuária anunciou publicamente, em novembro, que pediria ao presidente Michel Temer a cabeça do ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho (PV-MA), e da presidente do Ibama, Suely Araújo.

O texto da Casa Civil atende em grande parte às reivindicações do agronegócio: isenta de licença todas as atividades agropecuárias em “área rural consolidada”, ou seja, desmatada até 2008; e todas as propriedades com extensão de até 15 módulos fiscais (área que pode chegar a 1.500 hectares em Mato Grosso). E cria outras nove isenções para atividades econômicas diversas, a pedido de ministérios diversos – de modernização de aeroportos a sistemas de transmissão de energia.

O MMA pede muita calma nessa hora. O ministério vinha defendendo a chamada “lista positiva”: o Conama e os conselhos estaduais de Meio Ambiente definiriam quem precisa de licenciamento e todas as atividades fora da lista estariam automaticamente dispensadas. “Quanto mais se estender essa lista [de isenções], maior será a probabilidade de judicialização da futura lei”, avisa.

O texto da pasta ambiental lembra, ainda, que três iniciativas estaduais para isentar a agropecuária de licenciamento, na Bahia, no Mato Grosso, e em Tocantins, foram suspensas pela Justiça.

A Casa Civil afirmou que a minuta do projeto é fruto de uma construção coletiva entre 13 ministérios, além de Ibama, Iphan, ICMBio e Fundação Palmares, “tendo sido alcançados avanços significativos a partir de consensos firmados em grande parte do conteúdo discutido”. A pasta afirma, ainda, que o texto ainda se encontra em elaboração e, portanto, sujeito a novas evoluções. “O estágio atual do processo é de ampliação das discussões que passam a envolver outros atores relevantes, como o Conama, o Congresso Nacional, entidades associativas dos órgãos ambientais nos estados e nos municípios, da indústria, dos serviços, entre outros.” (Observatório do Clima/ #Envolverde)

* Publicado originalmente no site Observatório do Clima.

grafico-verde-768x724

Ao longo dos últimos dez anos, uma rede cada dia mais forte de stakeholders estratégicos e organizações não governamentais com influência e atuação internacional promoveu a ideia de um “capital natural”. Essa seria a chave para o desenvolvimento sustentável, em particular para expressar questões de conservação em termos que economistas, políticos e CEOs entendem.

No recente Congresso Mundial de Conservação, realizado pela IUCN no Havaí, o “capital natural” esteve onipresente no lançamento do Protocolo do Capital Natural e o anúncio de uma nova coalizão que visa desenvolver a financeirização da conservação.

No site do Fórum do Capital Natural, o conceito é descrito nestes simples termos: “A comida que comemos, a água que bebemos e os materiais que usamos para produzir combustível, equipamentos ou medicamentos”. Este exemplo é fundamentado na suposição de que o conceito do “capital natural” pode se tornar a base para uma economia sustentável. Mas dois argumentos principais deste programa (que a natureza pode ser vista como um capital e de prestação de serviços e que o capital pode se tornar a base para uma economia sustentável) estão baseados em enganos; enganos que agravarão os efeitos negativos da nossa economia de crescimento globalizado, e não combatê-los.

Crescimento verde ilusório

Certificar como “capital natural” o alimento que comemos e a água que bebemos só tem sentido no contexto de um crescimento econômico que não é nosso. Nesse contexto, tudo deve ser considerado um “capital”. Em seguida, é necessário clarificar o verdadeiro significado dessa palavra. Na linguagem cotidiana e de acordo com algumas teorias econômicas, o capital é muitas vezes visto como um “estoque” ou como um conjunto de ativos. Mas, é preciso ver o capital como um processo, uma dinâmica.

Trata-se de investir dinheiro (ou valores) para ganhar mais dinheiro (ou valores). Em suma, o capital é o valor em movimento.

O capital num sistema de economia capitalista, nunca é investido para render nada. O objetivo é sempre obter mais dinheiro ou valores, muito além do que fora investido inicialmente. Caso contrário, não seria capital.

Segue-se que o deslizamento do conceito de “natureza” para o de “capital natural” não é uma mudança de terminologia inocente, que consiste na utilização de um novo termo para significar a mesma coisa. É mais uma reconceitualização, de uma reavaliação fundamental da natureza. Para os defensores do “capital natural”, a natureza trabalha para o crescimento capitalista. Isso foi então chamado de “crescimento verde” o que é um eufemismo adocicado.

Se o deslizamento do conceito de “natureza” ao do “capital natural” é um problema, é também porque ele pressupõe que as diferentes formas do capital – humano, financeiro, natural – são equivalentes e intercambiáveis.

Na prática – embora os partidários do “capital natural” o neguem enfaticamente – isso significa que tudo pode ser expresso numa unidade comum e quantitativa: dinheiro. Mas os elementos naturais, inerentemente complexos, qualitativos e heterogêneos, como esses mesmos adeptos reconhecem, não podem resultar em unidades monetárias quantitativas e homogêneas.

Além disso, existe uma contradição fundamental entre a natureza ilimitada do dinheiro (sempre pode gerar mais dinheiro) e os limites do “capital natural” (nem sempre se pode transformar o “capital natural” em capital monetário).

O conceito de “capital natural” é, portanto, intrinsecamente antiecológico e tem muito pouco a ver com a valorização da natureza ou com o fato de fazer o seu valor tangível. Esta é uma forma de exploração da natureza que tem como objetivo promover e legitimar uma economia em declínio.

Foto: Shutterstock

Foto: Shutterstock

 

Investimento insignificante

O outro postulado dos partidários do capital natural consiste em afirmar que ele permite lançar as bases para uma sociedade sustentável. Na prática, no entanto, é claro que a maioria das empresas e governos não querem investir num “capital natural”. Assim, mesmo que se colem etiquetas de preços nos elementos naturais – sabendo que é impossível determinar o valor total da natureza – uma recente pesquisa mostra que os mercados dedicados ao “capital natural” e aos serviços dos ecossistemas estão falidos. Na realidade, não são de forma alguma mercados, mas sim subsídios disfarçados.

Além disso, os investimentos privados a favor do “capital natural” são insignificantes em comparação com os investimentos em atividades econômicas não sustentáveis. Estas atividades são muito mais rentáveis, e são uma forma do capital onde o “valor em movimento” é mais eficiente.

Quando o Governo do Equador, por exemplo, solicitou a empresas do país que conservassem a área protegida do Parque Nacional Yasuní, as promessas de investimento permaneceram bem abaixo do que se esperava e as aplicações financeiras reais foram ainda muito menores do que fora anunciado. Resultado: o país agora permite que as empresas perfurem o Parque para extrair petróleo.

Além disso, afirmar que o “capital natural” ajuda a tornar tangível o valor da natureza é um argumento hipócrita. O valor da natureza é perfeitamente visível para os investidores: eles sabem que a destruição é muito mais rentável do que investir para salvar a natureza.

Destruir sob o pretexto de proteger

De forma alarmante, o “capital natural” leva à destruição da natureza, sob o pretexto de protegê-la. Os programas baseados no “capital natural” geralmente oferecem compensar a destruição da natureza, e esta destruição gera os fundos necessários para investir na sua conservação. De acordo com a lógica do “capital natural”, os investimentos em atividades econômicas não sustentáveis são “compensados” pelos investimentos equivalentes em atividades econômicas sustentáveis.

Em teoria, esta prática deve resultar em nenhuma perda líquida – ou melhor, ainda, com um impacto líquido positivo sobre a natureza e a biodiversidade. Na verdade, ela leva a uma contradição insustentável ao induzir que a natureza só pode ser preservada se primeiro for destruída.

Mas, como mencionado, há um problema virtual porque os investimentos reais na conservação do “capital natural” são insignificantes. Pior ainda, as empresas costumam investir muito mais dinheiro em poderosos lobbies para manter a regulamentação ambiental com o mínimo controle, regulamentações e normas possíveis. Se eles sinceramente acreditassem na rentabilidade da conservação, teriam menos vontade de continuar com esse lobby.

Foto: Shutterstock

Foto: Shutterstock

 

As perguntas difíceis

A conclusão é clara: o “capital natural” não é uma forma realista de integrar a natureza na economia ou fazer seu valor tangível. Esta é uma ilusão que agrava e legitima a crise ambiental. E se alguns acreditam no seu potencial, a maioria dos investidores que dirigem o atual sistema econômico sabe muito bem que falar de “capital natural” é ilusório.

Entretanto, fazendo a promoção deste conceito, eles também sabem que questões mais importantes sobre a lógica do sistema econômico vigente e sobre aqueles que se beneficiam, não serão formuladas.

Não é hora de sair de uma economia baseada no fetichismo de um crescimento que não é sustentável? Não deveríamos considerar a construção de uma economia centrada no ser humano, na natureza e na igualdade, em vez de insistir num investimento financeiro destinado a criar cada vez mais riqueza? Não podemos apostar numa economia centrada na qualidade de vida, em vez da quantidade do crescimento?

Com um pouco de imaginação, as respostas a estas perguntas não são apenas simples, mas também pragmáticas, lógicas e verdadeiramente sustentáveis. (Eco21/ #Envolverde)

Bram Büscher e Robert Fletcher são professores de Sociologia do Desenvolvimento e Mudança, Universidade de Wageningen.

** Publicado originalmente na edição 240 da Eco21.

greenwashingt

Por Razmig Keucheyan*

Há mais de 40 anos, filósofo André Gorz alertava: capitalismo tentaria capturar causas ambientais. Antídoto: a ideia radical de que uma boa vida não está ligada a privilégios, mas à construção do Comum.

Há 42 anos, em 1974, André Gorz publicava na revista Le sauvage um texto famoso, intitulado Leur écologie et la nôtre. Le Monde diplomatique reeditou em 2010 extratos desse texto. E compreende-se porque: é simplesmente espantosa a previsão de Gorz, sua capacidade de antecipar a evolução das relações entre o capitalismo e a natureza. Gorz descreve desde 1974 o mundo em que o nosso está se transformando.

Veja o que diz Gorz:

“A consideração de exigências ecológicas (…) já tem bastante adeptos capitalistas, porque sua aceitação por parte do poder do dinheiro torna-se uma séria probabilidade. [A luta ecológica] pode criar dificuldades para o capitalismo e forçá-lo a mudar; mas, depois de resistir por muito tempo na base da força e da astúcia, o capitalismo finalmente cederá, porque o impasse ecológico terá se tornado inelutável; ele absorverá essa restrição, como absorveu todas as outras.”

O argumento de Gorz é simples: o capitalismo é um sistema resiliente. Pode encontrar dificuldades por causa da crise ecológica, mas no final se adaptará. Por que Gorz diz isso? Se o capitalismo conseguiu existir durante três séculos, é porque beneficiou-se de uma natureza gratuita, uma natureza que não era preciso “reproduzir”. Essa natureza gratuita, o capitalismo a utilizou como input e como output ao mesmo tempo. A natureza constituiu-se em fonte de inputs gratuitos para o capitalismo, pois, desde que existe, o sistema captura os recursos naturais “brutos” para transformá-los em produtos. Mas a natureza constituiu-se também em output, uma “cesta de lixo global” onde são despejados os dejetos da acumulação do capital, isso a que os economistas neoliberais chamam pudicamente de “externalidades negativas”.

Com a crise ambiental, a natureza não exerce mais essa dupla função de input e output gratuitos para o capitalismo. A dialética do sistema e da natureza entra em crise. Certos recursos naturais cruciais para a vida das sociedades modernas (água, combustíveis fósseis, ar não poluído etc.) estão desaparecendo, enquanto a manutenção ou limpeza do meio ambiente tornam-se mais e mais caros. Por exemplo, o custo da poluição para o sistema de saúde não para de crescer, pesando sobre a taxa de lucro. A conclusão que alguns tiram desse fato é clara: o capitalismo não vai durar muito mais tempo, precisamente porque tem uma necessidade imperativa dessa natureza gratuita. Sem ela, a acumulação do capital perde seu substrato material.

Gorz não está de acordo com esse raciocínio, ainda muito comum na esquerda – ele acha que o capitalismo saberá absorver a restrição ambiental. Com a crise ecológica, a natureza deve agora ser “reproduzida”, tal como a força de trabalho. “Reproduzida” significa que volumes crescentes de capital terão de ser investidos para despoluir ou proteger as populações – ou determinadas porções privilegiadas da população – das catástrofes naturais.

Um exemplo é o projeto de gestão “ecológica” do East River em Nova York, o East Side Coastal Resiliency Project. Com o custo de meio bilhão de dólares, é a primeira etapa da adaptação da cidade às mudanças climáticas e a catástrofes naturais, cada vez mais numerosas e intensas. Foi lançado após a devastação provocada na cidade pelo furacão Sandy, em outubro de 2012. É liderado pela estrelada empresa BIG, de arquitetos dinamarqueses (a arquitetura “verde” é um negócio florescente), e está voltado à proteção das áreas mais ricas de Manhattan.

O capital mobilizado para a “reprodução” da natureza terá dois efeitos possíveis sobre o sistema: ou a taxa de lucro baixará, pois essa reprodução será pouco rentável; ou então o preço das mercadorias produzidas dessa maneira aumentará, de forma que o lucro seja mantido, ou até aumente. Essa segunda eventualidade é a mais provável, diz Gorz. O imperativo de reprodução da natureza levará a uma alta geral dos preços, as mercadorias ou as infraestruturas se tornarão inacessíveis à população – mas acessíveis aos endinheirados. O poder de compra dos mais pobres será comprimido e as desigualdades aumentarão devido à crise ambiental.

“Levar em conta os custos ecológicos terá, em resumo, os mesmos efeitos sociais e econômicos da crise do petróleo. E o capitalismo, longe de sucumbir à crise, irá geri-la como sempre fez: grupos financeiros bem situados lucrarão com as dificuldades de grupos rivais para absorver a preço baixo e expandir sua apropriação sobre a economia. O poder central reforçará o controle sobre a sociedade: tecnocratas calcularão normas “ótimas” de despoluição e produção, elaborarão as regulamentações, estendendo os domínios da ‘vida programada’ e o campo de ação dos aparelhos de repressão.”

Aquilo que Gorz podia somente imaginar, extrapolar, é o que vemos tomar forma diante dos nossos olhos. Assistimos hoje à adaptação do capitalismo à crise ambiental, uma adaptação de duas ordens. A primeira, reflexo do capitalismo em situação de crise, é sempre mercantilizar, mercantilizar a natureza. Essa mercantilização opera hoje, por exemplo, por meio da criação de proodutos financeiros “segmentados” sobre a natureza, as catástrofes naturais ou a biodiversidade. Os mercados de carbono, os derivativos climáticos, os títulos de catástrofe ou ainda os bancos de ativos de biodiversidade estão entre esses produtos financeiros [1].

Mas o capitalismo não se contenta em mercantilizar a natureza, é mais esperto que isso. Contrariamente ao que a esquerda frequentemente imagina, os capitalistas são bem capazes de pensar a longo prazo, em especial quando seus lucros estão em jogo. Mais exatamente, em épocas de crise como hoje, as racionalidades capitalistas de curto e longo prazo entram em conflito – e as atuais hesitações das classes dominantes em relação à crise climática são testemunhas disso.

É o que demonstra o caso da BlackRock — a mais importante gestor de ativos financeiros do mundo. Ele gere cerca de 5 trilhões de euros. Publicou, em setembro passado, um relatório intitulado Adapting portfolios to climate change [2], no qual diz que os investidores devem a partir de agora incluir, em suas estratégias de investimento, o respeito ao ambiente nas empresas em que investem: emissão de gases de efeito estufa, danos à biodiversidade, consumo de água etc. A BlackRock lhes diz, preto no branco: é preciso investir somente nas empresas que se colocam seriamente a questão das mudanças climáticas e de seus efeitos sobre sua rentabilidade.

Esses fundos de investimento por certo não foram subitamente convertidos ao ambientalismo. O argumento da BlackRock é que, depois da COP21, a pressão da opinião pública e dos governos sobre as corporações vai aumentar, e a regulamentação ambiental será mais estrita. Isso significa que as empresas que não levam a sério essa dimensão irão ver-se em dificuldades e serão, portanto, menos lucrativas aos investidores. A expressão consagrada pelos financistas em inglês é “strand assets”, um termo que designa os ativos financeiros cujo valor diminuirá à medida que a regulação ambiental se tornar mais exigente. O relatório da BlackRock vai considerar como inevitável até a redução futura dos subsídios estatais para as indústrias fósseis.

Essa inesperada virada ecológica da BlackRock, contudo, entra rapidamente em contradição com a necessidade de realizar lucros aqui e agora. A imprensa financeira relata que, alguns meses antes da publicação desse relatório, a BlackRock impediu a votação de uma resolução “ecológica” durante a assembleia anual de acionistas da ExxonMobil. [3] A ExxonMobil é uma gigante do petróleo, o segundo valor de mercado do mundo, atrás apenas da Apple. O volume de negócios chega ao nível do PIB da Áustria. A BlackRock e outra gestora de ativos, a Vanguard, são os dois maiores acionistas da Exxon; juntas, possuem 11% do capital.

Um grupo de acionistas “ético”, que detém ações da Exxon, submeteu no início do ano à assembleia uma resolução pela qual a Exxon deve explicitar sua estratégia pós COP21. Como o conselho de administração da Exxon enxerga os efeitos do acordo de Paris sobre seus investimentos futuros, em matéria de energias fósseis? Não seria tempo de reorientar esses investimentos em direção a energias renováveis?

Os representantes da BlackRock na assembleia de acionistas votaram contra essa resolução. Eles não se opuseram apenas a que a Exxon renuncie às energias fósseis. Também imperdiram sua direção de explicar para os acionistas quais as consequências do acordo de Paris para a estratégia de investimento futuro da corporação. Em resumo, a BlackRock fez exatamente o contrário do que preconiza seu relatório.

Como explicar essa esquisofrenia dos capitalistas, da qual poderíamos dar numerosos exemplos? De um lado, publica-se um documento afirmando que os parâmetros ambientais devem entrar em consideração nas estratégias de investimento; de outro, opõe-se a uma resolução “minimalista” que convida a direção de uma major do petróleo a refletir sobre o pós COP21. Claro, sempre é possível dizer que os dirigentes da BlackRock são hipócritas, ou que fazem a chamada “lavagem verde”, ou greenwashing: eles dizem à opinião pública o que ela quer ouvir em matéria ambiental, mas paralelamente praticam business as usual.

Há talvez uma parte disso, mas não há razão para subestimar o fato de que os capitalistas se colocam, de fato, perguntas quanto à atitude a adotar no contexto da crise climática.

Há três coisas para analisar, aqui. Primeiro, a lógica do curto e do longo prazo entraram em conflito. O capital financeiro tem uma tendência congênita ao curto-prazismo, a buscar lucros imediatos. As instituições que permitiriam disciplinar esse curto-prazismo em matéria ambiental ainda não foram inventadas, e portanto o curto prazo venceu. Mas no passado, para sair de outras crises – como a dos anos 1930, por exemplo — o capitalismo soube perfeitamente disciplinar-se, ou ser disciplinado pelo Estado. Não há razão para pensar que será incapaz desta vez. Mas para isso são necessárias novas instituições.

Em segundo lugar, o relatório BlackRock tem o mérito de enviar um sinal às corporações. “O limite ambiental vai tornar-se mais premente depois da COP21. Se querem que a gente invista em seu negócio no futuro, reflita sobre os seus efeitos sobre a rentabilidade e tome as medidas que se impõem. Caso contrário, não lhe confiaremos nosso dinheiro”, é a mensagem enviada pela BlackRock.

Finalmente, esses fundos de investimento investem paralelamente em setores da economia que sofrem os efeitos das mudanças climáticas. Se um fundo de investimento possui ações de uma seguradora, tipo Allianz ou Axa, ele vê a curva de remuneração paga aos segurados subir como uma flecha depois de várias décadas, devido ao aumento das catástrofes naturais. Tem, portanto, um interesse objetivo na existência de menos catástrofes naturais, e portanto em reduzir as emissões de gases de efeito estufa das empresas em que investe, em outros lugares.

Voltemos a Gorz. Quando o capitalismo assimilar a pressão ambiental, diz Gorz, ele o fará em seu próprio interesse, e não no interesse das populações. Há a ecologia “deles”, a dos capitalistas, e há a “nossa”, das populações. Mas o que distingue a economia deles da nossa? A resposta de Gorz é muito estimulante, ela esboça um programa de trabalho político que devemos elaborar coletivamente.

Segundo Gorz, a divisa da sociedade capitalista é a seguinte: Aquilo que é bom para todos não vale nada. Você só será respeitável se for “melhor” do que outros. A esse slogan capitalista é preciso opor um outro, uma divisa ecológica: Só é digno de você aquilo que é bom para todos. Só merece ser produzido o que não favorece nem diminui ninguém.

O que distingue, para Gorz, “a ecologia deles da nossa” é a concepção de necessidade humana que sustenta cada uma. Na sociedade capitalista, a escolha daquilo que um indivíduo necessita para viver uma “boa vida” é da alçada do próprio indivíduo — ou seja, em última instância é do mercado, pois a vontade individual frequentemente não pode muita coisa diante do poder de persuasão do mercado. E a lógica do mercado é a da diferença: eu não sou respeitável a não ser que seja “melhor” que os outros. Claro, essa discussão é enganosa, pois o mercado promete a mesma “diferença” a milhões de indivíduos, isso que tende, em última instância, a homogeneizar tudo, e estabelecer “vidas programadas”, como diz Gorz.

Para pensar nossas necessidades fora da lógica do mercado, para romper com as subjetividades consumistas, é preciso opor a ele uma força de poder equivalente. Essa força não pode ser outra além da deliberação coletiva, a democracia, uma democracia radical. Às necessidades criadas artificialmente pelo mercado, é preciso opor necessidades coletivamente discutidas e articuladas: “Só é digno de você aquilo que é bom para todos”. A partir disso, trata-se – e isso é o mais difícil – de colocar-se de acordo sobre aquilo que é “bom para todos” — algo que só aparece por meio da deliberação coletiva.

A questão que Gorz não aborda, e da qual deveríamos nos ocupar nos anos que virão é: em quais tipos de coletivos, em quais “conselhos cidadãos” as necessidades “boas para todos” — aí incluído o meio ambiente — poderiam ser colocadas em discussão? Aqui é preciso inspirar-se nos “grupos de reflexão” feministas dos anos 1970. Nesses grupos, discutiam-se os aspectos mais íntimos da vida, pensando-os em sua ligação com a política. Esses grupos permitiram que as mulheres saíssem do isolamento, discutissem a opressão de que eram vítimas, e também tomassem consciência de sua força quando se organizavam.

Colocar-se de acordo sobre necessidades “autênticas”, que escapem à falsa diferença prometida pelo mercado e que sejam ecologicamente duráveis, poderia ser algo a fazer em coletivos do mesmo tipo. Combatendo o consumismo de que somos todos vítimas em níveis diversos, esses coletivos poderiam também pronunciar-se sobre o tipo e a quantidade de bens produzidos, tal como faziam, antes, os conselhos de trabalhadores. Este é talvez um dos futuros caminhos da radicalização da democracia, e também da superação do capitalismo. (Outras Palavras/ #Envolverde)

Notas

[1] Sobre isso, ver Razmig Keucheyan, La nature est un champ de bataille. Essai d’écologie politique, Paris, editora Découverte, 2014, cap. 2.
[2] Disponível no endereço: https://www.blackrock.com/investing/literature/whitepaper/bii-climate-change-2016-us.pdf
[3] Ver Financial Times, 6 de setembro de 2016.

* Tradução: Inês Castilho.

** Publicado originalmente no site Outras Palavras.

karachi-629x418

Santo Domingo, República Dominicana e Londres, Grã-Bretanha, 23/11/2016 – Agora que passou a Habitat III, vemos com maior clareza como transformar nossas cidades em ambientes inclusivos, seguros e mais produtivos, e contamos com um mapa do caminho concreto para conseguir isso.

A Terceira Conferência das Nações Unidas sobre Habitação e Desenvolvimento Urbano Sustentável (Habitat III) foi realizada em Quito, capital do Equador, entre os dias 17 e 20 de outubro.

A Nova Agenda Urbana surgiu em um momento oportuno. A urbanização está acelerada, em particular nas nações em desenvolvimento, onde espera-se que a população urbana duplique até 2050.

Somente na Ásia meridional, esta aumentou em 130 milhões de pessoas entre 2001 e 2011, segundo o último estudo do Banco Mundial. Além disso, projeta-se outro aumento de 250 milhões de pessoas até 2030.

Os habitantes das cidades necessitam de acesso mais equitativo a serviços básicos como água, saneamento, moradia, além de atenção médica próxima e bairros mais verdes e seguros.

Uma mulher utiliza um lavadouro público em um assentamento precário de Bangalore, capital do Estado indiano de Karnataka. Foto: Malini Shankar/IPS

Uma mulher utiliza um lavadouro público em um assentamento precário de Bangalore, capital do Estado indiano de Karnataka. Foto: Malini Shankar/IPS

Não podemos reduzir a pobreza sem investir no melhoramento dos assentamentos tanto formais quanto informais. Na Ásia meridional há 130 milhões de pessoas vivendo em favelas, e provavelmente sejam mais com o ritmo atual da urbanização.

Mas, para impulsionar uma mudança duradoura e a prosperidade para todos, os investimentos nas cidades devem seguir juntos com uma grande transformação das zonas rurais para que estejam parelhas, ou até mesmo mais atraentes do que as cidades.

O crescimento exponencial das cidades se deve em grande parte ao resultado da crescente brecha entre as realidades urbana e rural, onde a falta endêmica de serviços básicos e oportunidades de emprego expulsam a população rural para os centros urbanos. No apuro para enfrentar os desafios da urbanização, não podemos perder de vista o meio rural.

As comunidades rurais já não estão isoladas do resto do mundo. Os setores mais jovens têm telefones celulares inteligentes e conexão com a internet, e sabem que há lugares onde existem serviços melhores, empregos melhores e uma vida melhor do que a que podem ter onde vivem.

Os homens e as mulheres partem das zonas rurais em grande quantidade, deixando as comunidades que deveriam fortalecer e estruturar, e abandonam seus amigos, suas famílias e sua cultura.

Emigram para as grandes cidades em busca de trabalho e de um futuro melhor, mas, sem educação formal nem qualificação, muitos ficam à margem da sociedade a que aspiram pertencer.

Estima-se que no assentamento precário de Kisenyi, na capital de Uganda, vivem muitos dos quase 12 mil imigrantes somalianos que há neste país. Foto: Amy Fallon/IPS

Estima-se que no assentamento precário de Kisenyi, na capital de Uganda, vivem muitos dos quase 12 mil imigrantes somalianos que há neste país. Foto: Amy Fallon/IPS

O êxodo dos jovens põe em risco o tecido social das comunidades rurais e exacerba os problemas que a Nova Agenda Urbana busca atender: moradia precária e insalubre, falta de trabalho, insegurança e excesso de pessoas.

As pessoas emigram quando as opções em sua localidade são limitadas. Mas se houver investimento em sua capacitação, no desenvolvimento de negócios rurais, em assistência técnica, e tiverem apoio econômico, conectividade, boas estradas, serviços de saúde, eletricidade, haverá ampliação de suas opções e redução da pressão sobre os centros urbanos.

Vimos que isso acontece em países onde a criação de uma rede de universidades descentralizadas eleva o número de jovens formados e capacitados nas comunidades rurais, e como contribuem para transformar centros rurais abandonados em lugares animados.

Também observamos como em comunidades onde a realização de pequenos investimentos para o desenvolvimento de negócios e o acesso a serviços financeiros permitiram que alguns empresários rurais começassem atividades econômicas viáveis e gerassem renda para suas famílias, emprego para os vizinhos e serviços para suas comunidades.

Há outra razão pela qual as áreas rurais prósperas são fundamentais para a prosperidade dos centros urbanos.

Os pequenos agricultores e pescadores são os principais produtores de alimentos na maioria dos países em desenvolvimento. Na Ásia, África e Caribe, produzem até 90% do que as populações locais comem diariamente.

Com o crescimento da população mundial, será necessário aumentar a quantidade e a qualidade dos alimentos produzidos pelas comunidades rurais.

Crianças caminham em um assentamento precário no Peru. Foto: Cortesia do jornal La República/IPS

Crianças caminham em um assentamento precário no Peru. Foto: Cortesia do jornal La República/IPS

Os alimentos frescos terão que chegar mais rápido aos mercados e em melhores condições, e os agricultores terão que receber preços mais justos para poderem investir para melhorar seus produtos, preservar o ambiente e construir resiliência para enfrentar a variabilidade do clima.

As comunidades rurais e urbanas têm uma grande interdependência para conseguir um crescimento sustentável. Vivemos em um mundo interligado, mas onde as desigualdades entre pessoas, regiões e países expulsam um número crescente de pessoas de suas comunidades de origem com destino às cidades em busca de uma vida melhor.

Ao melhorar as condições de vida das populações rurais pobres e dar-lhes oportunidade de crescimento, podemos reduzir a pressão sobre as grandes metrópoles e criar sociedades mais equilibradas e prósperas. Envolverde/IPS

*Josefina Stubbs é candidata a presidir o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida), onde foi vice-presidente adjunta para Estratégia e Conhecimento, entre 2014 e 2016. David Lewis é professor de desenvolvimento e políticas sociais na Escola de Economia e Ciências Políticas de Londres.