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Paredão verde que cerca parte da porção sul de Belo Horizonte, no limite com Nova Lima, a Serra do Curral é o marco natural mais conhecido da capital mineira, mas ainda que avistado diariamente de vários pontos da cidade reserva mistérios do alto de suas cristas rochosas, acima dos 1.100 metros de altura.

Eleito em 1997 como símbolo da cidade, o acidente geográfico teve a visitação que percorria o topo da cadeia suspensa há um ano e um dos principais motivos é um dos segredos que o Parque da Serra do Curral preserva: exemplares raros de cactos que entraram no ano passado para a triste lista das espécies ameaçadas de extinção. De acordo com a gerente do parque, Marta Amélia Moreira Santos Lima, enquanto estudos e ações de preservação não forem feitos a visitação continuará interrompida para evitar que essa cactácea frágil que resiste no alto das pedras desapareça.
O cacto, de nome científico Arthrocereus glaziovii, não tem nome popular e é endêmico da canga mineira, ou seja, só existe no substrato de solo das áreas ricas em minério de ferro de Minas Gerais. Além desse raríssimo exemplar, há ainda outras curiosidades e impactos que quem admira a serra de longe não enxerga, como os destroços de um avião que caiu em 2010, erosões provocadas por vazamentos nos aspersores de combate a incêndios e invasões frequentes que ameaçam a integridade da formação.

Para mostrar esses mistérios, a reportagem do Estado de Minas percorreu a trilha fechada, de quase 3 quilômetros, pela crista da Serra do Curral até o Parque das Mangabeiras. Sem a manutenção adequada devido ao fechamento da passagem, o mato tomou conta de vários trechos tornando difícil transpor alguns espaços entre a rocha e as cercas de metal que foram instaladas no alto. Por outro lado, ninhos de pássaros e flores selvagens proliferaram em vários desses espaços com a menor proximidade humana. “O homem sai e a natureza vai tomando de volta os lugares”, disse o encarregado geral do parque, Lourimar Soares de Jesus.

E é só no meio da trilha, já depois que a serra tem aos seus pés a Praça do Papa, o alinhamento visual da Avenida Afonso Pena e do Mineirão, quase ao horizonte, que aparece o primeiro arbusto do cacto ameaçado de extinção dependurado na beira de um dos abismos de rochas pontudas. Um local que evoca uma impressão de fragilidade, por parecer que o espécime pode cair a qualquer momento. Mas, ao mesmo tempo, por ser esse um acesso tão difícil, mais afeito aos urubus e águias que vivem na montanha, isso ajuda a explicar porque o vegetal raro resistiu intocado por tanto tempo. Poucos dos cerca de 10 caules verdes e arredondados cobertos por espinhos finos ultrapassam mais que um palmo de altura. Alguns desses caules têm botões fechados de flores vermelhas que apenas desabrocham à noite.

INVASORES Mais adiante, perto dos aspersores d’água que a mineradora Vale utiliza para prevenir e combater incêndios na serra, dois homens foram encontrados admirando a paisagem. Os invasores foram alertados pelo encarregado do parque para que deixassem o local e tomaram uma das estradas que a mineradora utiliza para dar manutenção aos equipamentos.

Alguns minutos depois, num outro trecho, mais uma dupla de invasores apareceu ao longe, se esgueirando entre as pedras altas dos cumes da cada montanha. “Essas invasões são uma grande preocupação devido a incêndios e depredações. Esse tipo de visita só pode ocorrer acompanhada. Temos câmeras e vigias, quando ocorre um caso assim chamamos as autoridades, mas nem sempre isso é evitado”, reconhece a gerente do parque, Marta Amélia Moreira Santos Lima.

Poucos metros passados após o encontro com os invasores e um dos cactos ameaçados que beirava a trilha foi encontrado destruído. Pedaços dos caules estavam espalhados, como se tivessem sido chutados por alguém que passava pelo mato. “Esse é um cacto muito frágil e é uma pena ver que mesmo com a proibição de entrada aqui na serra não impede que sejam quebrados”, lamenta o encarregado do parque.

Esse é um dos motivos para que a visitação ainda não seja aberta. “Estamos estudando com as fundações de Parques e Zoobotânica algumas formas de proteger essa espécie, já que só restam exemplares em pouquíssimos espaços, como nas serras do Curral e da Moeda. Provavelmente teremos de desviar a trilha atual para que as pessoas não passem tão perto do local onde os cactos estão”, afirma a gerente da unidade de conservação. De acordo com ela, estudos também serão feitos para averiguar a viabilidade de reprodução dos cactos em criatórios ou estufas para que possam ser replantados em outros locais. Com isso, a abertura da trilha, que estava prevista para o início deste ano, poderá se atrasar até o segundo semestre.

Ficha Técnica do cacto
Nome científico
» Arthrocereus glaziovii

Dimensões
» 10cm a 12cm de altura

Morfologia
» Caules curtos, com flores de até 10cm de diâmetro, efêmeras e de floração noturna
Como são as flores

» Cor branca na face superior das pétalas e marrom avermelhada com listas na face inferior
Onde se encontram

» Endêmica da Cadeia do Espinhaço em Minas Gerais, ocorrendo nos campos rupestres ferruginosos das serras que compõem o Quadrilátero Ferrífero, como a Serra da Moeda, Serra do Rola Moça, Serra da Piedade e Serra do Curral

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Domingo de sol, preservação ambiental e união de forças. Moradores de várias regiões de Belo Horizonte, defensores das áreas verdes da cidade, se reuniram na manhã de ontem em caminhada, plantio de árvore e abraço simbólico na Serra do Curral, símbolo da capital localizado na Região Centro-Sul. “É uma homenagem à natureza de BH e também um dia de conscientização. Queremos mostrar que a legalidade deve prevalecer, impedindo empreendimentos irregulares aqui”, afirmou o presidente da Associação dos Moradores do Bairro Mangabeiras, advogado Rodrigo Bedran.

Eram 9h quando homens e mulheres de todas as gerações, sozinhos ou em família, começaram a chegar à Avenida José do Patrocínio Pontes, nas imediações do Parque das Mangabeiras. Em pouco tempo, muitos já erguiam cartazes e estendiam faixas, mostrando preocupação não só com a Serra do Curral, mas também com as matas do Planalto, no Bairro Planalto, na Região Norte, do Mosteiro, no São Bento, e das Borboletas, no Sion, ambos na Centro-Sul, do Jardim América, na Região Oeste, do Parque Amílcar Vianna Martins, no Cruzeiro, Centro-Sul, com a Serra da Moeda e outras.

“Com força e fé, a serra fica em pé”, gritaram os manifestantes do portão do parque até a Praça do Papa, onde deram as mãos dadas e depois aplaudiram o maciço tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1960 e pelo município desde 1990. Uma das bandeiras do movimento é contra a instalação do Centro de Prevenção e Tratamento de Doenças Neoplásicas do grupo Oncomed, no prédio do antigo Hospital Hilton Rocha, na Avenida José do Patrocínio Pontes.

No mês passado, em caráter liminar, a 17ª Vara da Justiça Federal proibiu qualquer tipo de intervenção (alteração ou ampliação) no imóvel, que se encontra na encosta da Serra do Curral. A decisão judicial foi em ação civil pública do Ministério Públicos Federal (MPF) e de Minas Gerais (MPMG). “É preciso haver, cada vez mais, o fortalecimento do Ministério Público e a soberania do Poder Judiciário”, ressaltou Bedran, ressaltando sempre que “a legalidade deve prevalecer”.

UNIFICAÇÃO Acompanhado a caminhada, o presidente do Movimento das Associações de Moradores de BH, Fernando Santana, explicou que a bandeira não é contra a instalação de um equipamento para a saúde. “Precisamos de hospitais, mas não numa área de preservação ambiental tombada. Na verdade, somos contra a localização”, destacou Santana, que declarou apoiar a decisão do MPF e MPMG. Na sua avaliação, as políticas públicas não contemplam como deveriam o meio ambiente: “Vemos a degradação de áreas verdes, pressão imobiliária sobre outras e outros impactos, como realização de festas, com som alto em lugares de preservação”.

Os cartazes e faixas traziam desde o apoio ao Ministério Público como frases de cunho ecológico, entre elas “Verde é vida”, “A morte da árvore é nossa morte”, “O corredor ecológico da Serra do Curral está ameaçado”, “Parque Amílcar Vianna Martins – Esse parque é nosso” e “A floresta amazônica é o pulmão do Brasil e a área verde do Jardim América é nosso pulmão”. Para a presidente da Associação do Planalto e Adjacências, Magali Ferraz Trindade, o apoio à Serra do Curral mostra a unificação da luta pela preservação do verde em BH. “Estamos unidos, e os políticos deveriam fazer um curso para ter maior conhecimento de causa e sensibilização.” Ela acrescentou que é preciso pensar nas nascentes que estão nesses espaços e nos animais, enquanto admirava uma família, depois a criançada, plantando a muda de uma castanheira no sopé do maciço.

Morador do Bairro Mangabeiras, o engenheiro de metalurgia e geólogo Marcos José Soares destacou a importância da região para a cidade e seus moradores:“Trata-se de um parque, de um corredor ecológico. A cidade tem poucas áreas verdes e, se perder mais essa, ficará prejudicada. Aqui não é lugar de construir.” Exatamente pelas perdas e abertura de precedentes é que a presidente da organização não-governamental Arca-AmaSerra, Simone Bottrel, se mostra preocupada. “Há uma pressão do poder econômico sobre as áreas verdes. Se a construção desse empreendimento for liberada, o mesmo poderá ocorrer na Serra da Moeda e em outras áreas da Região Metropolitana de BH”, disse.